quarta-feira, 30 de maio de 2018

A dor e a trégua


A gente não percebe o valor da saúde até perdê-la.
Não lembro onde li isso, há tempos, mas guardei pra mim. Passei a vida sendo grata pela minha saúde e pela liberdade que ela sempre me permitiu, mas, tendo sido essencialmente saudável minha vida toda, essa gratidão era racional, daquela que só poderia imaginar uma circunstância de ausência de saúde.
Agora, nessas semanas em que a minha vida se reduziu a investigar as dores articulares intensas que têm me acometido, parece que eu estou finalmente experimentando gratidão pelo meu fisico de forma vivencial. É a vivência que toca nossa emoção, permite a sensação plena de rendição e agradecimento ao plano maior da existência que está ali nos proporcionando aquele momento.
Às vezes, os vários remédios que estou tomando me permitem momentos sem dor ou quase sem dor. Tenho saboreado essas horas com uma gratidão devocional, que jamais senti diante do meu corpo sempre são. Me faltava essa vivência da dor intensa e persistente. Agora vivo, integralmente, com consciência, os momentos de corpo que não dói. Essa foto, com a Preta, nossa filha cusca, foi um momento de trégua, desses que eu tenho vivido com alegria e consciência. Não sei ainda um diagnóstico; não sei se uma crise apenas ou algo crônico; nesse mar de incertezas, só sei que há dessas tréguas. E eu as tenho vivo com gratidão. Os momentos de dor, busco vivê-los sem resistência, dando espaço para que surja em mim o que eles vieram me ensinar, para que o meu corpo depure o que da minha história pretérita não me serve mais. Na dor e na trégua, exercícios de viver o agora.
Imagino que dessa fonte de consciência surgem os depoimentos de pessoas que dizem que as doenças fisicas lhes mudaram a vida, a forma de ver as coisas. A vivência é muito poderosa.
E que seja de mim o que tiver que ser! Estou fazendo minha parte para que seja cada vez mais amor, saúde e consciência :-)
Bjs

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Abraçando o que vier


Estou em retiro.

Uma situação de saúde me chama a atenção: ei, olha para a Fê-corpo, olha para a Fê-alma.
Sincronamente, o mundo à minha volta entra em retiro também - nossos planos práticos pessoais, as programações de todos à nossa volta, o país, tudo estaciona, na falta de meios de deslocamento, nas convulsões da greve.
Em meio a situações pessoais e coletivas que despertam a ansiedade do porvir, tenho feito meu esforço de viver o agora. Três seres, principalmente, sustentam esse momento e essa retirante que sou e estou: meu amor, que é meu co-aprendiz nessa estrada que graças a tudo que há de mais sagrado nos permitiram compartilhar; nossa filhota Preta, que me faz apenas ser, quando sento com ela no colo fazendo um cafuné, quando cuido dela e das suas necessidades; e o querido Marco Schultz, o professor que fala de um jeito que meu ouvido e coração sabem ouvir. Logo mais há um retiro com ele em SP, ao qual intencionei ir - tudo bem, se estamos longe, porque há o youtube me trazendo a boa nova através de suas palavras também.

O Marco me diz (aos 1:12 deste vídeo):
"o que acontece normalmente é: vem frustração e a gente resiste, a gente não quer sentir, a gente não acolhe. O yoga, o sadhana do yoga seria acolher essa frustração e ficar com o mistério disso: do acolhimento, do exercício de não criar resistência com aquilo que não é agradável, que é desconfortável. Esse encontro, ou seja, essa oferenda, esse acolhimento, esse pertencimento para a frustração, ao invés de a gente sempre tabelar frustrações como algo negativo, desagradável - não, é algo que compõe, faz parte; é ali que o mistério acontece. Esse teu exercício de acolhimento é a ponte. E, de repente, sem a resistência, a frustração pertencendo, já não é mais frustração. É quase como você tá tudo bem, mesmo quando não tá tudo bem. Mas tu não tem algo contrariando o "não tá tudo bem", porque tem um algo "tudo bem" antes. E não é conceito, não é uma gaveta egoica se abrindo, não é você não dando bola, e isso que é interessante, pq é através do karma, muitas vezes difícil, difícil - a vida tá dificil, mas hoje eu conheço um lugar onde eu reconheço que esse difícil passa. E que, se houve a manifestação do difícil, resta-me, a nível do exercício, na escola da vida, aprender a acolher o difícil também. E de repente acolhendo algo do mistério - pq o ego não faz isso, o ego não acolhe o difícil, o ego resiste ao difícil; então, que mistério é esse, em mim e em você, que acolhe o difícil? Eu poderia dizer que já é o Eu Maior acontecendo. É da gente fidelizar essa investigação - essa realização ou possibilidade de realização: que mistério é esse que acolhe o sofrimento? E olha que bonito, e não meramente bonito, mas que milagroso: eu comentei do Buddha - quando ele acolheu a verdade do sofrimento, dele mesmo, como Sidarta Gautama, e, sendo assim, de todos, porque, veja bem, através do acolhimento dele com ele mesmo, ele realizou a falência do personagem egóico em cada um/todos nós, seres humanos. E o que não é isso? Você sair da tua experiência pessoal, porque ela não é meramente uma experiência pessoal, é da realidade da humanidade em você, ou seja, você-humano também; mas abriu-se compaixão. Porque o acolhimento do sofrimento é a realização da compaixão. Olha que forte: a gente fala de compaixão, escreve livro de compaixão, mas existe um preço pra de fato tu ter realização do que é compaixão, que é estado, não é um sentimento. Compaixão é um estado, e o preço é esse, é você acolher o próprio sofrimento. E aí, que incrível, né - será que é sofrimento, então? Se você tá num estado de compaixão, será que tu sofre, mesmo?"

:-)

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Das coisas que uma mudança traz à tona

Achei a caixinha com os brincos hoje, faz pouco, arrumando o gaveteiro da escrivaninha. Parecia um filme na cabeça me levando de volta pra 2011... eu recém chegada no atendimento ao público no INSS, depois dos meus anos de serviço em Recursos Humanos. Lembro tão bem dos primeiros dias, o impacto do contato com o nosso público tão carente de tanta coisa! Hoje eu sei que só tive uma dimensão um pouco mais precisa do tamanho dos meus privilégios depois de conviver mais de perto com nossos segurados e com os candidatos à assistência social. Até então, eu vivia numa bolha feita de escola particular, universidade federal, bairro legal... tinha aquela noção bem difusa e distante da tal pobreza, da tal ignorância.
E aí tava eu numa agência do INSS, por escolha minha, já que eu quis vir embora de Brasilia. Eu sonhava com os atendimentos com frequência naquelas primeiras semanas. Lembro de alguns dos primeiros segurados, até hoje, com clareza. O senhor que me contou que a vizinha tinha recomendado que ele parasse de tomar banho uma semana antes da perícia, porque não saía benefício pra gente limpa, e que me perguntou se aquilo era verdade; a senhorinha melancólica dizendo que envelhecer era difícil, porque velho começa a pensar nas coisas da vida e aí que a gente vê que a vida não é fácil; a senhora que não falava, ombros curvos, o marido andando na frente dela em direção ao guichê e respondendo às perguntas meio intimidador, como se o atendimento fosse para ele; as pessoas que choravam emocionadas com suas aposentadorias de um salário mínimo; a senhorinha infartada e os brincos.
A senhorinha infartada foi o primeiro caso complexo que adotei, desses que só se desenrolam quando alguém os adota, se alguém os adotar. Mais um daqueles tantos em que um empregador não recolheu INSS devidamente, e em que o ônus da prova recai sobre uma pessoa que fazia tudo certinho. O difícil é que eu não sabia coisa nenhuma de legislação de benefício na época, então pra resolver o pepino eu tinha que sair perguntando pra os colegas, todos ocupadíssimos no atendimento, e não entendia a resposta que eles davam hehe. Talvez por toda a dificuldade técnica daquele momento, junto com a grande vontade de ajudar e a sensação de impotência, aquela história foi tão marcante pra mim.
No dia em que conheci a senhorinha, escrevi depois sobre ela para minhas colegas de Brasília, com quem trabalhava meses antes, pra desopilar o coração. Acho que é o retrato mais fiel do meu sentimento naquele momento:
"Em 18 de outubro de 2011:
(...)
Agora, com que cara um servidor diz pro segurado: o erro foi do seu patrão, mas a senhora com esse coração infartado que vai ter que correr atrás de provar que trabalhou nesse tempo se quiser ter direito a benefício - eu não sei! Eu tava quase chorando enquanto dizia pra ela que o INSS precisa trabalhar com provas para um período sem contribuição. E acho que ela percebeu minha agonia, pois me agradeceu pela atenção e por explicar direitinho pra ela o que precisava fazer. Tão quietinha, nem se indignou, comigo ou com o INSS ou com o empregador, como que esperando que o pato sempre sobrasse pra ela pagar.
Ela foi embora e fiquei pensando em como, meu Deus, as pessoas pobres sofrem nesse mundo e perdem seus direitos, pelo pouco acesso à informação, pela pouca importância que lhes dão, pelas dificuldades burocráticas que emperram a vida de quem faz tudo certo, pelas provas que temos que dar pois a má-fé uns invalida a palavra de todos.
(...)
Li hoje um texto de um servidor de Niterói que me fez lembrar das minhas matutuações dos últimos dias. Acho que só não caio na prostração e indignação que ele sente pois desde que comecei a atender público, sinto que a minha responsabilidade é com cada cidadão que senta aqui. Não é com Ministro, com Presidente, com metas - é com a pessoa que senta na minha frente. Quanto mais a pessoa é privada de sua dignidade e cidadania no dia-a-dia, maior minha responsabilidade. Claro que eu queria que toda a máquina fosse diferente e que todos fossem tratados igualmente - mas, como diz o Drummond, só tenho duas mãos, então antes fazer a minha parte que gastar energia me indignando com uma engrenagem que não vai mudar só pela minha indignação. Teve dias que de tão cansada e de tantos segurados esperando eu não podia fazer mais do que sorrir enquanto atendia voando e adiar um pouco mais o almoço, mas se é isso que dá pra fazer, que seja. Os figurões vão seguir dando carteiraço, tendo prioridades e licenças especiais e tudo mais, mas o meu protesto silente é tratar com toda a deferência que a minha posição permite as pessoas mais desprovidas de direitos que aparecem aqui. Minha consciência fica mais tranquila, as pessoas que eu atendo parecem sair felizes, ou conformadas pelo menos, e eu posso achar uma razão, um objetivo de vida neste trabalho tão igual todo dia, e tão desgastante às vezes.
Eu sempre disse que minha realização reside mais na minha vida pessoal que na profissional, e me parece que eu descobri um jeito de fazer meu trabalho funcionar pra minha realização pessoal... que bom :)
Agora que eu desabafei com vocês, já até passou a vontade de chorar e eu já posso tomar o rumo de casa... salão vazio na agência e buzinas lá fora.
(...)"
Tanto tempo, tantas experiências desde aquele outubro de 2011! O atendimento ao público realmente ganhou meu coração, como eu já suspeitava enquanto escrevia esse email. A história da senhorinha acabou "bem" - marcamos um depoimento com o empregador e com ela, a fim de reconhecer a continuação daquele vínculo de doméstica que estava sem recolhimentos há 7 anos, aprendi a fazer os acertos necessários no cadastro dela, a revisão no benefício negado, e ela teve direito a um salário mínimo mensal de auxílio-doença. Ela ficou tão grata que me trouxe um par de brincos numa caixinha antiga. Pediu que eu ficasse com eles pra lembrar dela. Fiquei muito emocionada, ela também.
E eu não lembrei mais o nome dela, nem sei como ficou a continuidade do benefício - meses depois eu fui da agência de Canoas para a de Osório, e comigo foi a caixinha dos brincos. Nunca os usei, e os tinha sempre por perto em casa, um lembrete pra não perder a essência do que eu queria ser no trabalho. No fim, o lembrar dela a partir dessa essência era um lembrar muito mais forte do que lembrar do nome ou do rosto.
Em alguma mudança que veio depois, a caixinha foi da estante para uma gaveta. E nessa mudança de agora, ela surgiu em meio à limpeza e organização. Que lembrança querida, que viagem no tempo ler novamente esse email, lembrar da Fê assombrada com os primeiros impactos do atendimento ao público no INSS. A gente vai ficando prática, vai aprendendo a trabalhar, ganha um jogo de cintura, aprende a não entrar com tudo no sofrimento do segurado, vai conhecendo as mentirinhas que por vezes nos contam no balcão; tudo isso é o natural. Mas eu peço, nas minhas preces, pra nunca perder a ternura, nunca perder o comprometimento com as pessoas e a fé nelas. Os brincos agora vão pro altar, onde fazemos nossas preces aqui em casa. É bom lembrar por que estamos nos lugares em que a vida nos colocou...
Bjos!

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Interiorizando, afinal!

Oi queridos :)
Hoje é 18 de dezembro de 2016 e estou escrevendo esse post para que ele seja postado em algum momento do início do ano que vem.
É um post em comemoração à minha remoção! Hoje, 18 de dezembro de 2016, ela ainda não aconteceu, mas eu resolvi escrever desde já porque 1) não terei tempo de escrever uma vez que a remoção saia, já que eu vou estar bem envolvida com a mudança, e 2) porque nesse momento, dezembro de 2016, é disso que eu tenho vontade de falar. Ontem encontrei várias pessoas queridas numa feira de rua de produtos orgânicos e artesanais em Novo Hamburgo, e naquela conversa de oi-tudo bem-como vai com elas eu me dei conta de que só o que saía naturalmente como definição do meu status presente é: "tá tudo lindo, me preparando pra morar no interior". É o meu estado real, sincero, que eu parei de negar com medo de estar caindo na armadilha da antecipação, e que curiosamente agora tá bem dissociada da aflição da qual eu falei aqui, durante os processos de remoção anteriores, que tomaram todo o nosso ano de 2016. Eu já quis muito controlar e planejar o momento da nossa ida pro interior, e claro que isso trouxe uma carga considerável de sofrimento. Mas sinto que o que eu vivo hoje não é isso. Aqui, agora, é um aproveitar cada dia aqui na vida de região metropolitana, no apartamento com vista pra garagem, e me dar conta de que as coisas que naturalmente despertam meu interesse hoje vão ter muito mais espaço num ambiente de interior, e aceitar que tá tudo bem, que minha hora vai chegar, que o ritmo dessa mudança não tá nas minhas mãos. A vida tem sido bem alegre, temos estado com frequência com nossos amigos e nossa família, temos plantado e aproveitado o espaço que temos em Sapucaia pra plantar e testar mini construções paisagísticas, temos viajado pra lugares que espelham a realidade que queremos viver. Não existe mais a contagem regressiva que eu andava fazendo naquele período aflito pela mudança; é apenas a constatação de que minha forma de aproveitar cada dia é aquela de uma pessoa que quer viver no interior, e que sabe que em algum momento vai.
Sexta-feira eu andava em Porto Alegre e mais uma vez me colava o Eddie Vedder na cabeça cantando Society: essa ganância é um mistério pra mim... é muito legal essa letra e reflete muito da minha perplexidade sobre o ponto a que chegamos como civilização.
Já faz mais de ano que, junto com o processo de redescobrir a natureza, eu fui meio que me incompatibilizando com a cidade muito grande - os barulhos, cheiros, as pessoas aos montes se cruzando na rua sem nenhum reconhecimento umas das outras, as interações baseadas em medo e competição, a ostentação dos materialmente ricos, a degradação dos materialmente miseráveis, a falta do verde, as relações de poder históricas - tácitas mas claras para aqueles que já estão com os olhos de ver. Com esses olhos de ver que eu tenho andado nas cidades maiores. Esteio, por mais tranquila que seja do que Porto, é urbana o suficiente pra não me inspirar nada muito diferente. Fico fazendo um esforço de consciência pra não ficar julgando desnecessariamente, simplesmente observar e focar no que há de bom - claro, há o bom sempre, em todo lugar, e muitas iniciativas do bem apenas encontram espaço nos maiores centros urbanos. Observo e aceito, apenas, que prefiro estar na paz do meu verdinho.
Quando falo em ir pro interior, falo tanto de estar vinculada a uma cidade de pequeno porte - e eu, sim, fico muito feliz com a ideia de estar perto de uma cidade, não tenho vontade de me enfurnar no topo da montanha e viver como monge hehe -, quanto de ter um espaço que me permita o contato com a terra. A vontade de cidade pequena veio antes, já há uns 6 anos, quando morava em Brasília e planejei meu retorno pro Rio Grande do Sul. Eu gosto de como as relações humanas e institucionais funcionam nas cidades bem pequenas, parece que não rola tanto aquela vida em castas como na cidade maior - filhos dos ricos na escola particular e filhos dos pobres na escola pública, o SUS precário de um lado e o hospital bem chique do outro. Não tem espaço pra muito luxo, restaurantes muito gourmetizados, shopping centers. Eu me sinto à vontade nessa simplicidade, nessa desigualdade social menos ostensiva. As pessoas têm mais espaço pra viverem as coisas reais da vida, a rua efetivamente é espaço de convívio, as crianças são mais livres, não ficam naquele binômio arrepiante apartamento-shopping que leva os pais a não darem conta da energia natural da infância e recorrerem com uma frequência crescente a remedinhos pra elas...
A autonomia tem muito apelo pra mim também, a cidade pequena é um lugar em que ter um pátio faz parte da vida, a pobreza não é miserável pq alguma coisa de comida sempre se planta em casa. Na grande cidade saturada de gente, os cubículos de concreto me dão a sensação de falta completa de autonomia - se depende de suprimento externo pra comer, beber - todo o básico da vida é suprido apenas na troca por dinheiro, aí ter ou não uma fonte de dinheiro vira a tônica da vida. Aí já entra minha vontade de um espaço maior do que só um terreno de cidade e poder plantar mais. Eu tenho tido cada vez mais vontade de autonomia, de ser capaz de suprir o básico da minha existência a partir do meu espaço, uma ideia que se fortaleceu no nosso contato com a permacultura, com a vontade de comer comida limpa e de não financiar empresas com posturas político-econômicas predatórias.

Então... por todas essas e mais a nossa vontade de pé da terra que firmamos nossa intenção pro universo de ir pro interior, naquele momento de vida em que algumas pessoas pensam que a gente tinha mais era que seguir estudando e galgando degraus profissionais pra ganhar mais e mais. É tão bom seguir a voz do coração em vez de a voz do senso comum :) é tão bom não ter medo de se jogar numa mudança assim - claro, se jogar com confiança mas com responsabilidade - e saber que a gente não precisa acertar sempre, e que se não for bem o que a gente esperava, a gente sempre vai poder mudar de novo e de novo, afinal não tem nenhum problema em errar, e ficar bem paradinho com medo de errar é meio que morrer antes do tempo.
Que seja uma linda jornada!
Bjs com carinho,

Obs.: agora, em abril, lendo esse post, percebo que outros movimentos ocorreram - aquela dissonância forte em relação às grandes cidades diminuiu, a ponto de essa semana eu ter transitado em paz por São Paulo - me fazendo pensar que a paz real tá dentro, sempre... no mais, segue o post da forma em que foi escrito meses atrás :-)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Conversas: Sofrência X resiliência, parte 2

Série Conversas: posts surgidos de algum assunto com alguém :-D

Bom dia já em 2017!
Que seja um ciclo de aprendizado no amor :)
Depois de uma noite feliz junto de pessoas amadas, tô aqui acordada primeiro que todo mundo e querendo escrever haha! (post iniciado dia 1o de janeiro hehe)
Depois daquele post sobre a importância do reconhecimento das nossas sombras e tristezas para uma experiência de vida mais profunda e leve, achei q era interessante compartilhar a continuação das minhas matutações sobre essas questões que envolvem resiliência. Esses dias vi um desses quadrinhos no facebook que dizia assim: o pessimista reclama do vento; o otimista espera que o vento mude; e o realista arruma as velas.
Fico um pouco contrariada com essa visão que se tem do otimismo, como se fosse uma atitude necessariamente passiva, um mero esperar que o melhor venha do céu. Eu entendo que a gente pode combinar sim uma atitude pró-ativa com a compreensão de que o andar da carruagem não tá totalmente no nosso controle e que o melhor que a gente pode fazer pela situação, além de agir com discernimento, é ver com bons olhos o que se apresente.
Esses tempos, há uns 2 meses, eu e o Rô fomos num retiro no CEBB Caminho do Meio, nossa primeira vivência num espaço budista. Foi muito especial e o assunto do retiro era "sorrindo frente aos obstáculos". Fazia alguns meses que eu me aproximava das ideias budistas através das postagens do Gustavo Gitti, um queridão que achei no facebook através de uma amiga virtual, que trabalha com transformação pessoal (simples assim: se tivesse uma página só que eu pudesse sugerir que as pessoas seguissem, de tudo o que há no facebook, seria a dele). Foi bem bom ter tido essa introdução pra aproveitar melhor o retiro - saí de lá cheia de luzes e se desse pra resumir os aprendizados com as minhas palavras, acho que seria algo como: todo sofrimento acontece dentro de nós e vem do olhar as coisas com uma visão limitada; quando ampliamos nossa visão, nos damos conta de que o que nos contraria só tem poder pra isso a partir da interação conosco e com a ideia que fazemos das coisas. Fica mais fácil de entender que tá dentro de nós a possibilidade de parar de vê-las de uma forma que nos faz sofrer, ainda que decorrentes de algo que o nosso senso moral entende como negativo e promotor de dor ao redor. Cada um sabe de si, das suas escolhas, e vai estar vinculado ao resultado energético delas - mas quando o comportamento de alguém nos atinge, cabe a nós modular a forma como isso acontece trabalhando nossa paisagem mental. Se o sofrimento fosse compulsório diante de comportamentos imorais que nos atingem, pessoal, social e espiritualmente, a gente tava bem lascado, com tudo o que acontece de ruim por aí né? Ainda bem que não é, por mais desafiador que seja conviver com algo que nos dói e conseguir que isso não se transforme em sofrimento :)
Fiquei um bom tempo depois do retiro ruminando essas noções e achando formas de aplicar nas situações que eu andava passando. Uma delas era a grande questão do ano, a vontade de morar no interior e os esforços que estamos empreendendo nesse sentido. Antes dessa, já tive várias dúvidas práticas que tinham a mesma questão de fundo - devo aguentar uma situação adversa, já que sofrer com a adversidade é só uma tendência da minha cabeça diante de um contexto? Dependendo de como eu lidar, as coisas não me atingem, independente de como sejam; mas como negar que há situações que não me exigem esforço pra não sofrer, e outras que exigem? E mais: faz sentido ficar buscando as situações que não me exigem esforço, se vim pra Terra pra aprender? Porém: conhecendo o gasto energético envolvido em viver na base da resiliência pra não cair na sofrência, será que não vou estar me mantendo longe do meu propósito, aquele caminho que é o meu natural e mais fácil, que vai me permitir florescer e manifestar meu melhor pro mundo?
Vou colar aqui a conversa com um amigo que conhecemos nesse retiro, e que manja bastante dos paranauê e me ajudou a desenredar as coisas de forma mais definitiva pra mim:


Eu:

-fiquei pensando em te comentar sobre a babilônia e depois esqueci kkk
-sabe q muitas vezes q tô passando por lugarzinhos lindos e remotos eu fico pensando: tem gente que vive aquela realidade ali todo dia da sua vida
-o Rô já cansou de me ouvir comentando isso nas viagens kkkk
-pq parece q a gente tá meio condicionado a pensar q a vida tem q ser na muvuca
-oportunidade$ são na cidade blabla
-mas meu coração fica só querendo aquela vidinha desses lugares
-foi bem legal me conectar com essa vontade e ir atrás de morar no interior
Amigo:
-Eu super concordo com o q tu disse mas tb fico pensando q não tem diferença...claro q o interior parece mais humano e tudo, mas acho q a nossa mente pode construir céus e infernos em qualquer lugar
Eu:
-eu tava pensando nisso ontem
-sobre não fazer diferença
-e até onde se pode ou se deve levar essa prática
-pq me parece que não dá pra ignorar que existem pessoas e ambientes que vibram baixo
-aí fico pensando que não há pq escolhê-los por perto de mim se posso escolher diferente, quando eles me demandam mais esforço pra me sentir estável
-pensar sobre não ter diferença entre seres e lugares tem me ajudado muito a não ficar sofrendo e rejeitando quando a circunstância que existe não é aquela onde eu me sinto mais confortável
-tipo, o não fazer diferença é uma ferramenta pro meu mundo interior
-mas nas minhas ações, acho que sigo tendendo a buscar as companhias e circunstâncias de vida que me ajudam a manter minha energia
-tipo isso do onde morar... agora não tô sofrendo por estar aqui ainda (tava sofrendo bastante ao longo desse ano em alguns momentos), mas sei que tenho a intenção de morar no interior
e sei q vai rolar no tempo certo
-penso bastante nisso pq aquele entendimento meio torto do espiritismo me fez cair nuns conformismos de capacho em relacionamentos ao logo da minha vida... então fico tentando entender como trabalhar dentro de mim mas não deixar que minha vida vire só um trabalho interior pra viver bem com circunstâncias adversas :-/
Amigo:
-pensando no que tu disse eu acho assim
-que falando em termos gerais não faz diferença, mas na nossa vida faz sim
-tipo: os lugares não são melhores ou piores, mas a gente se sente bem ou mal neles
-então, é claro que temos de procurar onde nos sentimos melhor
Eu:
-exato :D a nossa coemergência com os lugares dá dica do nosso propósito de vida...
(Coemergência: é a palavra pra definir o fenômeno de que o surgimento dos objetos é inseparável de uma posição mental; a paisagem da mente que vai dar forma ao objeto ["objeto" aqui, pode ser qualquer coisa, inclusive algo abstrato]. Uma metrópole só ganha atributos ao interagir com o meu entendimento dela; sem isso, é vazia em si mesma)
Desde essa ficha caída, ficou bem mais fácil me apaziguar com meu otimismo pró-ativo. O que eu falei ali, sobre o entendimento torto do espiritismo, é essa noção de que a gente veio pro mundo pra expiar, pra pagar os pecados de agora e de antes, uma visão bem contaminada pela culpa e castigo que parece que permeia a história da cultura judaico-cristã. Eu tive momentos da vida de achar que um sofrimento repetitivo na forma de um relacionamento disfuncional era minha sina, minha missão, meu comprometimento. Não nego a importância que esse tipo de experiência teve na minha capacidade de resiliência e ressignificação, no aprofundamento da minha fé, mas também acredito que teria sido um desperdício de vida ter perpetuado aquela circunstância. Lembro com clareza até hoje quando descobri uma frase, ainda dentro do contexto do espiritismo, que parecia ser uma única voz no meio de todas aquelas que me diziam "aguenta, aguenta que tu vai colher frutos na outra vida desse sofrimento bem vivido" - foi a boia salva-vidas que me deu a possibilidade de sair daquela situação de sofrimento sem sentir que estava fugindo da raia, abandonando o barco:
"Ama sempre, mas não te permitas relacionamentos conflituosos sob a justificativa de que tens a missão de salvar o outro, porque ninguém é capaz de tornar feliz aquele que a si mesmo se recusa a alegria de ser pleno." Joanna
Foi esse ensinamento que me permitiu reconhecer quando eu já não estava mais enredada naquela situação e ser pró-ativa na direção de uma vida mais feliz e estável, com gratidão pelo ciclo que se encerrava e por todos os aprendizados que levei comigo. Na vibe jucaico-cristã distorcida, sobra conselho. Até sobre morar na metrópole, ouvi gente dizendo: isso de ir pro interior é fuga, a cidade grande precisa de ti pra ancorar uma consciência diferente, vai fugir da luta e ir lá pro interior onde já tem paz, blablabla... mas a que custo pra mim, mesmo? Não seria me comprometer com um relacionamento conflituoso sob a justificativa de salvar a cidade? Não significa que o conflito seja inerente à cidade; e sim que a minha coemergência com ela não é agradável. O que a gente faz na base do sacrifício com vistas a resultado tem tudo pra gerar sofrimento e frustração. Em todo lugar tem trabalho a ser feito pra mudar a gente e mudar o todo.
A voz da minha coemergência! hehehe
Foi muita libertação pra minha noção de amor e de como levar a vida conhecer os entendimentos orientais, nos últimos anos, pois eles me parecem mais libertos dessa culpa e fustigação da expiação de pecados e me deram a sensação de ter escolhido certo ao agir e não me conformar com viver só de resiliência. Me fizeram entender que o caminho do propósito se acha ao buscar se conhecer de verdade e encontrar o que a gente faz por que é nossa expressão no mundo, e não só na expectativa de resultado; me disseram que "expiar pecados" sem libertar a mente não resolve nada. Se o karma é dívida de aprendizado, o conhecimento e a consciência ampliada libertam do resgate, fecham ciclos. Acho que os aprendizados que nos levam à resiliência são essenciais na vida diante das tantas e tantas circunstâncias que não podemos modificar; mas, diante daquelas que podemos, além do trabalho interior, que nos dará clareza pra agir, cabe a ação mesmo: se conhecer pra caminhar na direção do nosso propósito, ter a coragem para as mudanças necessárias - como diz a linda oração da serenidade, que me acompanha desde que me entendo por gente.
Então, a lição que ficou pra mim é: a gente pode trabalhar a nossa paisagem mental pra não ficar na sofrência com tanta coisa na vida que vem goela abaixo e com um gosto não muito bom. Mas, a partir desse trabalho interior de resiliência, eu sigo achando que o negócio é buscar ativamente aquilo que nos faz bem, quando existe a possibilidade real e sustentável de mudança prática - sem culpa, sem castigo, sem comprometimentos baseados em codependência e sacrifício romantizado; e sim na consciência de que a nossa energia tem que estar vinculada ao nosso propósito e de que a nossa missão de verdade é caminhar na direção disso. Nas palavras do Prem Baba:
“Não queira estar onde você não está. Estando onde estiver, faça o que é necessário durante essa fase para poder criar mais presença. Essa deve ser a sua referência, mesmo que você seja um “detento do muladhara chakra”. Não há nada de errado com o jogo. A complicação é quando a margarida quer se tornar uma rosa; quando o arbusto quer se tornar um eucalipto… Isso é complicado. Estando onde estiver, aprenda o que tem que ser aprendido nesse lugar. Você somente é convidado a mudar de lugar no jogo, quando aprende o que tem para aprender. Lembre-se: karma é uma dívida de aprendizado e não de sofrimento. Tendo aprendido a lição, naturalmente lhe é dada uma nova. Portanto, não importa em que chakra você está, você está ali para aprender a amar desinteressadamente.”
Bjs!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Retrô 2016 nos caminhos de dentro

Oi queridos!
Na véspera de Natal eu estava arrumando a mochila pra uma semaninha na companhia da family e quando vi tava viajando longe, pensando no ano incrível que foi 2016. É engraçado pq, naquele foco por resultados, tinha tudo pra eu achar que o ano foi o maior fail: no direcionamento político, econômico, social, muiiiitos desapontamentos e o meu entendimento de que estamos indo pra longe daquilo que me parece o bem de todos, e em vez disso estamos indo de arrasto na direção de mais privilégios para os já privilegiados. Na minha vida pessoal, como já contei na minha choradinha de pitangas nesse post, não foi esse ano que rolou a almejada ida pro interior. E o suficiente de ocorrências bizarras e tristes pelo mundo a ponto de 2016 ter virado piada nas redes sociais.
Massss, apesar de tudo isso do lado de fora, sim, foi uma ano incrível pra mim, de crescimento profundo por dentro, de sedimentação e refinamento de muita coisa que começou a surgir ali por 2013, foi tomando forma em 2014, criando corpo em 2015 - é impressionante, eu sinto que o entendimento de mundo que eu tenho hoje foi um desenvolvimento muito, muito recente - 2013 eu tava já com 29 anos -, de quando a minha vida pessoal foi ficando menos cheia de drama e começou a me sobrar energia pra ler, refletir, trocar ideia com pessoas que me acrescentavam, meu olhar foi além do âmbito das minhas relações mais próximas. Nesses anos, muita coisa foi construída sobre a base do que me veio como herança familiar e da minha natureza inata, tanto em termos de espiritualidade quanto de posicionamento como cidadã - e esses dois aspectos foram se relacionando e se complementam como uma espiral em dupla hélice (DNA feelings hehe): meu entendimento sobre espiritualidade ganha mais umas nuances, e isso me ajuda a definir o meu comportamento como cidadã; a sociedade me impõe mais um e outro desafio, e assim se torna um treinamento pro meu entendimento e vivência de espiritualidade e me ajuda a refinar o meu entendimento de como a vida funciona.
Eu tive a internet como grannnnde aliada na minha sede infinita de pensar a vida nesses anos, e sou grata pra caramba por isso - sempre que alguém vem dar aquela chineleada na era virtual (pessoas não se encontram mais, gastam tempo só vendo bobagens blablabla), lá vou eu defender e lembrar que toda ferramenta pode ser usada pra coisas mais ou menos úteis, e pra mim a internet foi o canal pra muito do que me interessa na vida - me deu conhecimento, contato com pessoas afins e a informação dos eventos do meu interesse. Sempre cabe o adendo: não ter TV em casa é uma bênção e eu recomendo pra todo mundo! Vc vai ler mais, escutar mais música, ver menos coisa triste desnecessária e notícia tendenciosa conforme a grande mídia quer que vc veja.
Olha o review de 2016, se não tá é bem bom - alguns momentos lindos de aprendizado em espiritualidade que eu vivi esse ano:
- vivências de biodanza, em especial uma maravilhosa com o Mauro Rotenberg, focada no legado do Rubem Alves, na Frater em Porto Alegre/RS;
- palestras introdutórias de Conscienciologia, em Porto Alegre;
- retiros e oficinas aprendendo sobre xamanismo, sagrado feminino e o Sincronário da Paz, em Canela/RS e Porto Alegre;
- aulas da SRF, um mundo que se abriu a partir da leitura da Autobiografia de um Yogue, do mestre querido Yogananda;
- psicoterapia com regressões que me mostraram coisas muito interessantes, em Porto Alegre;
- vivências interessantíssima de constelação familiar, como participante e constelando, em Porto Alegre;
- retiro de 21 dias em São Lourenço/MG, que relatei aqui, e meu primeiro contato mais próximo com a Fraternidade Branca;
- retiro urbano com Marco Schultz e Roberto Crema, em Porto Alegre;
- todas as aulas do meu curso de pós-graduação em saúde e espiritualidade, em Porto Alegre;
- satsang com o Prem Baba, em Porto Alegre, e tudo o que tenho aprendido com ele nos livros, textos e vídeos;
- encontro com o Rogério no Jardim das Esculturas e ouvi-lo contar da sua história de agricultor a mestre em artes marciais, yogui e escultor por vias completamente intuitivas, no interior de Santa Maria/RS;
- jornada sobre cuidados paliativos na prática em saúde, na Santa Casa em Porto Alegre;
- retiro Sorrindo para os Obstáculos no CEBB Caminho do Meio, em Viamão/RS, depois de meses tendo um primeiro contato mais próximo com as ideias budistas através das postagens do Gustavo Gitti;
- psicoterapia com um super foco em busca de propósito, em Porto Alegre, algo que eu não procurei ativamente e que chegou pra mim totalmente como um #ficaadica do universo, através de uma orientação no centro espírita que é meu reabastecimento energético semanal.
E os cursos que me propiciaram aprendizados mais práticos e que me mudaram nos hábitos e no meu posicionamento como cidadã:
- um workshop chamado Faz-me Rir, sobre gestão financeira para pessoas que estão buscando um caminho autônomo, com ideias muito legais de economia colaborativa e alternativas pra viabilidade material fora do esquema do mundo cão tudo pela grana, em Porto Alegre;
- só na minha ONG do coração, a DATERRA, foram curso de produtos de limpeza caseiros, de agrofloresta, de cultivo de cogumelo shiitake, em Estância Velha/RS.
- todos os cursos presenciais e virtuais que mudaram minha alimentação - o mais recente, de doces crudiveganos, pela querida Lis, em Porto Alegre.
- e um infinito de leituras que me mantiveram no caminho de me tornar uma consumidora de alimentos orgânicos em feiras, consumidora de produtos locais e artesanais, cliente de brechós, interessada e iniciante nas artes do plantio, adepta de políticas afirmativas que buscam corrigir desigualdades históricas, buscadora de práticas de sustentabilidade, guardiã de minhoquinhas na composteira, pessoa com intenções de ter bem mais autossuficiência em subsistência do que consigo hoje, participante de financiamentos coletivos, tagarela pró-minorias, turista de experiência e não de resort, colaboradora de ONGs que fazem um trabalho importante de amor e empoderamento de pessoas em situação de fragilidade social, servidora pública apaixonada pelo atendimento e pela ideia de uma previdência pública e do trabalhador, utilizadora e manufatureira dos meus produtos de higiene e limpeza, cozinheira das minhas comidinhas naturebas, blogueira por amor e por aí vai.
A minha vontade era (ops, ainda é), escrever sobre cada uma dessas experiências, já que eu sou CDF e faço anotações em palestras kkkk, é meu jeito de reter as informações importantes e ruminar até que virem insights pra mim. Não vou perder a fé de conseguir escrever mais frequentemente aqui, hehe, e já que esses aprendizados são atemporais, uma hora ou outra vão aparecer post com matutações derivadas desses momentos de 2016.
"Nós temos conversado... e achamos que tá na hora de vc atualizar seu blog!"
Mas voltando pra relação entre espiritualidade e atuação: depois de um período, em 2015, de muitas mudanças objetivas nos meus hábitos, nesse ano de 2016 ficou bem claro pra mim que as mudanças práticas precisam ser sustentadas por uma prática de espiritualidade que dê propósito ao que se faz, que nos permita viver felizes com a nossa rotina, e não com a sensação de aquilo ser um fardo - escrevi sobre esse caminho aqui. E isso definiu algo que passou algum tempo como item na agenda, e que agora nessa semana de férias aconteceu: uma reformulação das páginas iniciais do blog, pra refletir o que já tem acontecido nas postagens - em vez de o foco principal ser mudanças externas, de hábitos (o que era minha intenção quando comecei o blog, naquela vibe de 2015), hoje eu sei que o que realmente me motiva pra escrever, o que sustenta tudo o que a gente manifesta do lado de fora é o que se leva dentro. Eu falava esses dias com um amigo que o que sustenta a nossa resistência e as nossas lutas é o que a gente cultiva dentro, senão uma hora a força pra agir acaba, como seca uma planta sem raiz - pq olha... o mundinho hoje sabe ser desestimulante pros idealistas. Não dá pra o nosso referencial ser o lado de fora de nós.
Sobre aquilo que eu falei antes, de os meus posicionamentos práticos viverem em complementaridade com a minha prática de espiritualidade, dou um exemplo: há várias formas de se ser feminista. Pra mim, a forma de manifestar o desejo de igualdade entre pessoas de todo gênero foi completamente inspirada no meu entendimento do amor como a lei maior do Universo, na noção de princípios feminino e masculino que o xamanismo me deu, na desidentificação com o corpo de dor feminino de que o Eckart Tolle falou tão bem no livro O Poder do Agora. Eu me manifesto com frequência sobre esse assunto, honro toda a luta pra chegarmos até aqui e sei que faço a minha parte pra manifestar igualdade no que deve ser igualitário - mas a paz que a espiritualidade me dá, de me ampliar a visão sobre os processos que acontecem na matrix, me protege de muito da raiva que o histórico de machismo causa em muitas das pessoas que se posicionam pelo feminismo (raiva justificada, mas nociva e acho que pouco produtiva). Sei do mal que a raiva traz pra dentro de nós, das impressões que as falas raivosas causam nas pessoas, e não quero isso pra mim nem quero passar essa impressão quando falo do feminismo. Sinto que tudo funciona bem melhor quando o dentro e fora andam juntos.
Então é isso... muita gratidão a 2016 e vamos ver se o blog começa 2017 com as páginas iniciais atualizadas conforme o que ele é hoje :-)
Bjs a todos, alegrias e muito amor no novo ciclo!

terça-feira, 15 de novembro de 2016

O cará e o olhar sobre a natureza

Oi queridos!
Pensei em escrever esse post depois de um findi aprendendo muito sobre sistemas agroflorestais com nossos amigos queridos da ONG DATERRA, em Estância Velha/RS.
Ainda naquela vibe maravilhosa, de pessoas buscando as mesmas coisas, trocando ideias, sonhos e dicas práticas, tava eu em casa fazendo coisinhas pela cozinha e passo os olhos pela fruteira - e o cará-do-ar que eu tinha trazido da feira orgânica tinha brotado!
Olhem a lindezinha, já devidamente deslocada pra janela pra seguir crescendo!
Aquela cena singela me deu uma ternura enorme. Lembrei de uma outra cena de um ano e meio atrás, quando fiz um curso de horta urbana com a minha amiga amada Milena - ela tinha uma bucha vegetal seca na mão, chacoalhou um pouco e caíam muitas sementes de dentro das fibras, enquanto ela dizia: "olhem como a mãe terra é generosa, eu dei terra e água para uma sementinha só, e agora quantas sementes ela me dá de volta!"
Muitas vezes eu me remeto a essa linda reflexão da Mi, quando vejo a abundância e generosidade manifesta nas nossas plantinhas, que cultivamos aqui na cidade mesmo, ou que o pai cultiva no quadradão dele na praia. Mesmo com a nossa dificuldade de logística atual, ficamos admirados de ver o quanto alguns cultivos dão certo, o quanto são resistentes, o quanto têm inteligência de vida embutida, o quanto dão generosamente.
O quadradão do pai na praia :-D
Essa contextualização é pra falar da mudança de ótica que fez toda a diferença na minha vida. Eu sempre tive contato com ambientes rurais, inicialmente lá na região da fronteira com o Uruguai, na fazenda do meu avô, depois no sítio do pai nos últimos 20 anos, e nesse meio tempo na faculdade de biologia que fiz. Aí, no ano passado, na minha grande revolução pessoal (logo conto como foi), quando descobri a grande mãe que vive na Terra, eu me perguntei: como eu nunca tinha te descoberto antes, Pachamama, mesmo com tanto mato ao longo da minha vida?
Depois fui entendendo - a minha herança familiar é aquela da cultura fronteiriça, o homem forte do campo que resiste à intempérie do clima, laça o gado, olha os campos de cima do seu cavalo, carneia e vive do churrasco. Ouvi muito meu pai contando as histórias de quando os italianos chegaram na fronteira e começaram a plantar arroz numa terra de criação de gado e ovelha - que os gaúchos estranharam, não se prestavam a uma atividade que exigia que se curvassem, como a agricultura. Interessante, né? Fui percebendo o quão patriarcal e dominadora era a relação com a natureza naquela cultura, e assim entendi por que ela nunca tinha me chamado a atenção ao me ser apresentada daquela forma. Nesse ano, 2016, eu fui novamente à Expointer, depois de acho que uns 15 anos da minha última ida. Estava há tempos querendo ir lá pra lembrar dos anos em que o meu avô competia com ovelhinhas de raça - eu era criança e achava o máximo aquela semana, ver os bichos, as competições, o convívio com os primos. Fomos, eu e o Rô. Primeiro nos encantamos e ficamos conversando longamente nos quisques da Emater, muitas pessoas legais e informações sobre agroecologia, saímos de lá cheios de mudinhas de chás e de PANCs. E a parte dos animais, que tanto fazia parte de uma lembrança de infância divertida, foi muito, muito triste de ver. O semblante dos animais, presos em meio metro de corda uns do lado dos outros, os cartazes de "remédio xyz para aumentar sua produção", "melhoramento genético pra dar cria mais rápido", o jeito que os peões lidavam com os bichos, tudo reforçou em mim aquela sensação de que a relação com a natureza que existe nesses meios mais tradicionais é uma de subjugação, de usufruto sem maiores significações.
(aparte necessário: claro que esse entendimento é de uma cultura dominante, tenho certeza de que muitas pessoas que vieram dessas mesmas formações culturais que eu têm uma relação mais respeitosa, integrativa e amorosa com a natureza. Como o meu pai, que sempre amou fazer horta e a arte de se curvar na terra...)
Cursando biologia, era outra a sensação - a de um distanciamento sem emoção, de enquadramento dos processos naturais em sistemáticas racionais humanas. Se algo existe, é passível de ser categorizado e descrito por nós. Nunca, nas aulas de ecologia na facul, ouvi um relato amoroso em relação à harmonia e à beleza do funcionamento dos ciclos da natureza; fico imaginando que não deve ser pq nenhum professor assim sentisse, mas pq existe aquela necessidade de ostentar objetividade no ambiente laico da universidade, não é lugar de falar de amor pela natureza, ora bolas.
Corta para início do ano passado: eu comecei a pós-graduação em saúde e espiritualidade e na primeira aula ouvi falar de reiki. Fiquei em encantada e fui atrás de um curso pra fazer, e uma colega muito querida nossa nos falou do grupo de reiki xamânico em que ela tinha feito a formação. Eu fiquei encucada com o tal do xamânico, imaginando o que seria e se era o mesmo reiki de que tinha ouvido falar na aula. Lá fomos nós pro fim de semana do curso e se abriu um mundo: o mundo da mãe divina, o princípio feminino manifesto na matéria na forma da capacidade de geração, expressa na semente como no nosso útero; o acolhimento, o alimento, a generosidade e a abundância como atributos dessa energia tão maravilhosa que permeia toda a natureza e que faz parte de todos nós. A energia do ki, do chi, do prana, esse princípio energético que permeia o cosmos, é tão melhor gerenciado por nós quando contrabalançado pelo ancoramento firme na energia introspectiva e amorosa da Terra. É o equilíbrio perfeito entre o princípio feminimo e masculino que existe em todos nós.
A partir disso, eu comecei a ver o sagrado e o divino na natureza, e o princípio feminino foi se desvendando em analogias infinitas - a água, tão sábia ao contornar obstáculos e emanar fluidez; as coexistências equilibradas entre as espécies. Eu e o Rô comentamos que a gente só vê fora o que tem dentro - e parece que por isso que os documentários sobre a natureza adoram abordar os episódios de caça e predação, as estratégias de sobrevivência. Faz parecer que a "natureza selvagem" é sempre bruta e inóspita, quando na verdade ela é muito mais pacífica e colaborativa que isso. A energia masculina tá manifesta sim, nos comportamentos mais ativos, de movimento, de alimentação, de defesa; mas se não for pra comer, não se mata. Existe uma frugalidade de hábito nos instintos, uma calma, um senso de equilíbrio. Isso já mostra o quanto nos dissociamos da nossa natureza primeira, tão difícil que é sermos frugais nos nossos hábitos e equilibrados...
Eu sinto muito que o retorno a um convívio mais próximo à natureza, que muitas pessoas têm buscado - e muitas pessoas jovens, inclusive -, tem a ver com essa mudança de ótica. Como se a gente olhasse pra nossa vida de sociedade pós-moderna nas cidades enormes e visse muita loucura, e olhasse pra natureza e percebesse lucidez, e a lucidez nos atraísse. Quando a percepção da lucidez da natureza vem acompanhada da imagem da amada mãe divina em cada milagre de nascimento e germinação, a atração é irresistível.
Já falei aqui sobre essa questão dos princípios feminino e masculino, ambas energias que temos em nós e que são necessárias para o nosso desenvolvimento e plena manifestação. O nosso momento atual de sociedade é resultado de muito tempo de domínio da energia masculina no mundo, e nesse processo a energia masculina saudável foi se distorcendo - e se criou o homem não chora, o não levo desaforo pra casa, o chefe de família, a dominação do mais forte, a competição, a subjugação. Olhem essa explicação do Prem Baba a respeito: "As distorções dos princípios vitais feminino e masculino, que se manifestam como agressividade e submissão, nascem da necessidade de retirar energia do outro. Energia significa amor – essa é a energia que alimenta o universo. O desamor é o que gera as distorções. Assim, a entidade humana, movida pelo desamor, passa a vida tentando conquistar o amor, mas tudo o que ela consegue é gerar mais desamor. O submisso gera mais ódio no agressivo porque ativa nele a violência do masculino distorcido; e o agressivo ativa ainda mais a submissão do feminino distorcido. Esse é o núcleo da guerra neste planeta.”
É essencial que nos demos conta disso, que nós, mulheres, não queiramos manifestar a mesma energia masculina distorcida pra nos igualarmos aos homens, mas sim que estejamos conscientes de manifestar os dois princípios de forma equilibrada, que encontremos a força do nosso feminino e a energia do masculino saudável dentro de nós; é essencial que os homens deixem fluir sua energia feminina sem medo de serem julgados por isso, que equilibrem e sanem o princípio masculino em si. Espelhar a natureza ajuda muito nesses processos de cura interior.
Percebi na minha vida desde muito cedo a presença do "pai": a energia cósmica que dá movimento e ordem ao Universo, ou Deus, como quiser chamar, que na cultura ocidental é bem masculinizada; na minha criação familiar, a energia mais impositiva também foi dominante. Foi muita, muita cura pra mim encontrar na natureza a aceitação, a generosidade, a intuitividade, o amor abnegado da "mãe". É um vácuo emocional não ter um referencial de energia feminina na vida. Lembro do Yogananda falando muito da mãe divina, e percebo o quanto a tradição indiana antiga tinha tanto deidades masculinas quanto femininas, para ilustrar todas as facetas da energia divina, as predominantemente "pai", ou energia masculina, e as predominantemente "mãe", energia feminina. O yin e o yang. No xamanismo, o grande espírito nos conectando com o alto, a grande mãe nos conectando com a terra. Sempre em equilíbrio.
E na Cabala também!
Minha ideia com toda essa história era tentar mostrar pra vcs o que eu senti quando vi o cará brotando. Lindo, cheio de vida. Amor manifesto no ser alimento e saber gerar muito mais alimento a partir de si mesmo, no receber luz e saber transmutá-la em energia. O reino vegetal é uma coisa fantástica. Que a gente sempre tenha gratidão ao tirar do galho as folhinhas que vão virar nossa salada, tirar do pé os frutos que nos dão seu sumo. Essa gratidão é um estado de presença, um reconhecimento do sagrado em todos os seres. É muito mais fácil de entrar nesse estado quando colho meus alimentos direto do pé. Vai ficando mais difícil à medida que a nossa fonte deixa de ser o pé e se torna a feira, onde pelo menos a gente sabe que tá tudo bem fresquinho; mais difícil ainda na quitanda ou no hortifruti do mercado; praticamente impossível nas comidas em caixinhas, tão dissociadas que já são das fontes naturais que as geraram.
de onde vem?
Que a natureza seja cada vez mais poesia e conexão com o sagrado dentro de mim. É isso o que o amor faz, transforma tudo em cor e verso, e quem quiser ouvir os versos que a natureza inspira, eu convido a ouvir o Lucas Santos cantando, e a partir dele tantos outros que o youtube for dando a dica, porque são muitas as vozes cantando esse amor. Convido também a ler sobre o xamanismo, meu canal de conexão com a sabedoria ancestral dos povos da nossa terra. Longa vida aos trabalhos de amor que despertam as pessoas para a natureza!
E o cará, hoje, tá bem feliz empoleirado numa cerca de um terreno num centro de cidade de região metropolitana, que é o nosso laboratório de plantio, hehe. Cada dia mais lindão :-D
Bjs