sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Tu te tornas eternamente responsável pelo sarro que tiras

Oi queridos :)
Tava aqui pensando sobre como as minhas matutações preferidas da vida rodeiam o tema "propósito".
Quando a gente pensa que não faz muito sentido só nascer, crescer, estudar, trabalhar, reproduzir, morrer, a gente fica atrás de algum sentido pra essa coisa toda da vida humana.
Sem querer restringir uma definição de propósito, eu gosto de pensar que meu objetivo por aqui é ser feliz, e só dá pra eu ser feliz se eu conseguir sentir mais paz dentro e só sinto paz dentro se eu for paz fora também, para o mundo e pra todos os seres. Isso acaba me fazendo cuidar meus atos, pra que eles estejam de acordo com essa minha vontade de agir de forma amorosa e pacífica em todos os níveis (nóis vive dando bola fora mas é isso que nóis tenta! kkkkkkk).
E hoje o objetivo do post é falar sobre uma das formas que eu tento ser paz fora, que é cuidar com o que eu acho graça e com o que eu faço graça.
Eu muito frequentemente digo (até já virou piada interna aqui em casa!) "mas qual que é o propósito disso??" diante de coisas que me parecem sem fundamento... e antes que se diga que a vida fica muito chata se tudo o que a gente fizer tiver que estar imbuído de propósito: isso não significa que absolutamente tudo o que a gente faz tem que servir a uma razão maior, louvável, pelo bem de todos. O propósito pode ser simplesmente se divertir, relaxar, descansar da seriedade da vida prática, e esses são propósitos importantíssimos pra nos manter leves e felizes. Mas é preciso cuidar: minha ação com propósito de alegria despretensiosa está afetando só a mim ou a outras pessoas também? Dentro do nosso quadrado, a gente pode ser o quão despropositado quiser. Mas se estou afetando os outros, COMO eu estou interferindo na vida deles?
Refleti bastante sobre isso esses dias, depois de uma conversa com amigos - um deles contando de uma pegadinha que um conhecido aplicava nos amigos. Ouvindo aquilo e não achando a menor graça, minha reação foi - "mas qual que é o propósito disso??" kkk... em geral nessas circunstâncias sinto que não sou muito compreendida, vêm aqueles comentários "ah a vida não pode ser só seriedade e propósito", "ah era só uma brincadeirinha", "ah que chato se a gente não pode nem dar uma risada de vez em quando".
É curioso pra mim ouvir isso, pq me acho uma pessoa que leva a vida leve e com bastante capacidade de rir, mas de rir COM as pessoas. Como dizer que o propósito de uma pegadinha é se divertir, se não se sabe se a pessoa objeto da pegadinha tá achando graça também? Que valor tem um momento de alegria às custas dos outros? É importante essa diferença entre rir COM os outros e rir DOS outros. A gente só tem o direito de tirar uma com a cara da gente mesmo, e é muito bom não se levar a sério. Mas a gente tem que ser cuidadoso ao entrar no mundo do outro. Claro que quanto mais se conhece alguém intimamente, mais se sabe o que é assunto sensível para aquela pessoa e o que pode ser brincado - esse conhecimento e respeito ao universo do outro permite muitos graus de liberdade nas brincadeiras do dia-a-dia. Falo aqui é da piada ou da pegadinha que acontece sem esse conhecimento mais profundo. Hoje eu busco não compactuar com pegadinhas, me recuso a demonstrar que acho graça de tiração de sarro de terceiros porque a gente nunca sabe o que passa no coração das pessoas, os traumas que elas carregam, o que pra elas é assunto sério. A gente não sabe o quanto tem de dor escondida naquela risadinha sem graça que a pessoa dá - afinal não se vai criar atrito com o amigo/familiar/companheiro por causa de uma piadinha né? Afinal a gente tem que ter "senso de humor", né, e aceitar ser zoado... senão a gente vai ficar com fama no grupo de treteiro, polêmico, sensível demais, "ah não dá pra brincar com o fulano". Então se ignora aquela sensaçãozinha desconfortável, se tenta sair com uma resposta humorística na ponta da língua que reverta a situação e zoe o zoador satisfatoriamente, e lá no fundo se vai absorvendo esses duelos-piada como a forma de interação vigente, o inconsciente vai internalizando a necessidade de defesa - tudo tão, tão sutil, que nem se percebe direito. Vira só uma angústia indefinida pra quem não incorpora naturalmente esse perfil de interação.
É interessante como esse assunto me mobiliza quando surge... eu acredito que o senso de injustiça que me atinge e me faz falar sobre isso é por eu já ter passado por situações o bastante nesse sentido e não sentir a menor familiaridade com esse jeito de conviver. Fui criada numa casa em que não havia tiração de sarro ou pegadinhas, então não aprendi a ser "rápida", a estar sempre ligada pra ver se não tão querendo me pegar, a responder de bate-pronto. Do jeito que o mundo vai, é praticamente um tipo de inocência. Se me falam algo em tom de verdade, eu pressuponho que seja verdade, e não que estejam me tirando. Meu negócio é coração aberto e desarmado, convivência amorosa. Sendo assim, tendo a não achar muita graça nem me sentir muito confortável com isso de estar sempre com um pé atrás como forma padrão de interação - além dos assuntos que nos são delicados e que todos temos. Há pessoas com todos os níveis de sensibilidade, não se pode tomar o todo por aquelas que sinceramente não sentem nada quando são alvo de piadas e pegadinhas, que jogam bem esse jogo do troçar e ser troçado - assim como não se pode tomar todos os negros por aquele que diz que não se afeta com o racismo humorístico nosso de todo dia, que sabe que piadas são ditas apenas com intenção humorística e não devem ser levadas a sério.
Sinto que as pegadinhas e as tirações de sarro genéricas vêm do mesmo saco que as tiradas machistas, racistas, homofóbicas (com muita frequência a piada vem com tons de preconceito contra algum desses grupos). É bullying, em diferentes formatos e graus... é manifestação sutil daquele nível de consciência em que é necessário se sentir mais que o outro pra se sentir bem. A reação das pessoas, diante de alguém que chame atenção para a responsabilidade nesse tipo de brincadeira, muitas vezes é a mesma reação de quem é chamado atenção por sua piadinha preconceituosa "ah mas eu só tava brincando, fulano sabe que eu considero ele pra c*, ele frequenta a minha casa inclusive". Será mesmo que fulano sente só alegria e diversão naquela brincadeira? E mais: será que o troçador se deu conta de que está contribuindo para a manutenção da cultura que gera os comportamentos ostensivamente ofensivos e doentes?
Porque sim, existe a responsabilidade nos casos concretos, que dependem do quanto a gente conhece o interior do outro, e a nossa responsabilidade como mantenedores de uma cultura em sociedade. Essa figurinha aqui embaixo é a coisa mais didática que já encontrei para explicar por que a pegadinha e a piadinha podem ser sim socialmente nocivas:
Essa rotina de fazer social tirando sarro é alimento para essa cultura, para que se perpetuem esses comportamentos que envolvem formas sutis de subjugação - quer ver um exemplo bizarro? É o trote da faculdade. Os bixos ficam lá aceitando situações que nem todos acham confortáveis, porque encarar bem o trote faz parte de se integrar no grupo, fazer amigos entre os colegas novos, se dar bem com os veteranos. E por dentro, começa a se formar o recalque: "faz parte ser courinho nesse momento, mas tudo bem pq no semestre que vem vai chegar minha vez de ser o que fica por cima". Aí já vão arquitetando tudo o que vão fazer com os pobres futuros bixos, que não tinham nada a ver com a formação desse recalque, e assim se perpetua a regra de descontar o que se viveu. "Eu aceito rirem de mim, pq aí vou poder rir dos outros também". (Se quiser ler uma história de como o piadismo irresponsável pode ser danoso, o início desse post conta a história do que fizeram com a maior doadora de leite materno do Brasil, a título de humor.)
Mensagem implícita lamentável nessa vida de piadismo irresponsável...
Parece que estou exagerando, que estou fazendo tempestade em copo d'água? Pode parecer. Porque isso tudo acontece num plano muito sutil. É a base da pirâmide de comportamento que sustenta o mundo de competição, de jogo de poder em vários níveis. Como toda base de pirâmide, é um comportamento amplamente disseminado na sociedade e é tão comum que as pessoas mal o percebem, não se dão conta de que há uma alternativa a esse comportamento. E depois se questionam pq existe tanta animosidade no mundo, pq a gente vive como se tivesse que estar sempre se defendendo dos outros. Esse artigo é um maravilhoso complemento à reflexão.
Imagina se o mundo fosse diferente - se as pessoas se honrassem nas menores interações, se acolhessem em vez de rirem umas das outras, se a alegria surgisse de reconhecimentos em comum: a beleza inimaginável que brotaria dos encontros? O crescimento, a irmandade? Não é ilusão. Eu sei que essa minha tendência a naturalmente não achar graça de troçar com a cara alheia é um dos fatores que faz meus amigos compartilharem comigo situações difíceis, me contarem das suas vidas num aspecto mais profundo. De alguma forma, pelo menos o inconsciente deles já sabe que eu não vou fazer pouco nem fazer graça daquele momento de abrir a alma. Sei que a gente pode chegar num ponto de coletividade em que a gente vai poder andar sempre de alma aberta, não vão ser mais necessários os escudos que levantamos pra proteger o que há de mais sensível em nós.
Depende de cada um, da consciência sobre nossos atos, da responsabilidade que assumimos diante da realidade que criamos... e vamos rir, rir muito, nutrir a alegria do coração em paz, do amor que encontra e comunga :) como eu li em uma canalização esses tempos: "E, enquanto despertam neste tempo, seus dons despertarão e habilitarão a outros. Utilizando as ferramentas do riso, do canto, da dança, da alegria, da confiança e do amor vocês estarão criando uma profunda onda de transformação que transmutará as limitações do antigo mito da dualidade e da separação, realizando o milagre da PAZ E UNIDADE NA TERRA."
Bjs com carinho,


quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Sobre ver vida no outro

Oi queridos :)
Hoje me deu vontade de escrever só porque tava aqui rolando o feed do facebook, entre uma tarefinha de computador e outra, vi essa figurinha batida:
Na hora, sabe lá pq, meu coração se tomou de tanta emoção, eu que já ouvi muitos "namastês" na vida, que percebo o quando essa expressão se tornou meio dita sem sentir. É que namastê só faz sentido se sentir!
Porque a vida muda quando a gente vê Deus no outro.
Mesmo pra quem não usa a palavra "Deus".
Porque a vida muda quando a gente vê vida no outro: simples assim.
Qualquer pessoa que passa por nós: ali vai um conjunto de construção de individualidade igual a vc. Ali existem emoções e pensamentos e um corpo que anda pela rotina mais ou menos cansativa, mais ou menos automática, mais ou menos desejada por aquele ser; naquelas emoções e pensamentos vive a memória de uma história de vida, certamente com seus traumas, com suas boas lembranças; as marcas daquele rosto, aquele jeito de andar mostram as circunstâncias da vida atual e dos anos passados; os olhos dizem aquelas emoções e pensamentos, mais eloquentemente que as palavras pensadas para serem ditas. É só ter olhos de ver... é só sintonizar o olhar.
O meu queridão (sinto que ele vai aparecer com frequência nos posts daqui pra frente... kkkkk) Eckart Tolle fala que a gente costuma interagir com papéis, não com pessoas. Vou no mercado e entro na fila do caixa e espero a minha vez - pra mim, se estou vivendo no automático, a pessoa que está ali é simplesmente "o caixa": alguém que desempenha a função de me permitir sair daquela fila e ir embora o mais rápido possível do mercado. Se não passar as compras rápido, se parar pra fazer alguma outra coisa antes da minha vez, vou ficar impaciente. Se não me olhar pra dar bom dia, vou pensar que é mal educada e que aquele mercado deveria exigir educação e cortesia de seus atendentes. Se jogar minhas mercadorias pro outro lado da esteira sem cuidado, vou ficar silenciosamente indignada com o descaso.
Mas... se eu vejo ali uma pessoa, em vez de "o caixa", tudo muda. Olha bem para aqueles olhos: o que eles dizem? Preocupação? Cansaço? Atenção ausente? Será que aquele ser queria estar ali, ou simplesmente não tem opção e precisa pagar contas todo mês? Será que aquela pessoa é uma mãe com um filhinho doente na casa da vizinha? O que será que ela faz quando sai dali, quanto trabalho será que ela tem em casa? Quanto tempo será que ela leva pra chegar em casa do trabalho? Ela é uma pessoa que precisa ir ao banheiro, se alimentar, contatar seus familiares, descansar uns minutos ao longo da sua jornada de trabalho. É absolutamente natural que ela pare eventualmente entre um atendimento e outro. Ela é gente. Ela é nós em outro corpo, com outra história. Isso é empatia.
Empatia muda a vida. Empatia nos tira da posição de críticos, de demandadores de eficiência. Nos permite ver o outro com a mesma compreensão e indulgência com que vemos a nós mesmos. Infelizmente, parece que muitos graus de empatia a gente só cria quando passa pela situação que antes a gente só via de fora. Essa historinha aí do caixa de supermercado é a história do que eu sentia e pensava quando ia no mercado, antes e depois de eu começar a atender público no trabalho. Percebendo as demandas do público sobre nós, num ambiente de escassez de colegas e quantidade de trabalho muito acima da nossa capacidade, eu vi o quanto eu fazia aquelas mesmas demandas quando estava no papel "a cliente" e o quanto elas eram potencialmente injustas. Hoje eu faço o possível para ver as pessoas por trás dos papéis. Quanto mais corrida a vida, no jogo da sociedade, mais o mundo nos incentiva a só ver papéis e exigir perfeição na execução das funções; nos incentiva também a sermos apenas o nosso papel e nos cobrarmos a mesma perfeição. Os seres se perdem... até que a gente faça essa revolução no nosso olhar.
A Júlia, minha médica virtual preferida, fez esses dias um apelo pra gente não esperar que a empatia brote naturalmente só por termos vivido a mesma situação. Uma vez feita a revolução no olhar, uma vez tomada a consciência da necessidade de empatia, vamos ver de fato o mundo ao nosso redor, vamos perceber tudo o que acontece com as pessoas e que não queremos pra nós, vamos compreender os caminhos tantas vezes cruéis que os levam a alguns comportamentos que julgamos maus. Vamos encher nosso olhar de empatia e amor :)
Parece que todo caminho espiritual nos incentiva a ver de verdade o Ser no outro. O Namastê da tradição indiana; o "In lak'ech" dos maias (eu sou o outro você).
Sabe até o que eu me lembro agora?
Aquele filme Avatar, e a palavra que o povo azul de Pandora usava pra se cumprimentar,
que significava "eu vejo você".
Bonito isso, né?
Dar oi dizendo eu vejo você,
reconheço o que faz de você meu igual
e o q faz de você único no mundo,
percebo as suas lutas pessoais,
seus ideais e sonhos,
suas fragilidades,
olho pra vc e realmente o vejo,
e por isso lhe cumprimento com respeito, admiração, carinho.
Tem um videozinho bem lindo que fala de empatia de forma muito, muito didática, tanto pela explicação quanto pela animação bem feita, divertida e sensível. Pra quem não tiver tempo de dar o play aí embaixo (vale muito a pena!), fica um resuminho do que ele traz: 
Empatia gera conexão.
Pessoas com capacidade empática conseguem tomar perspectiva e têm a habilidade de reconhecer a pespectiva do outro como a verdade dele; não julgam e reconhecem emoções em outras pessoas. Ter empatia é sentir COM as pessoas.
É como uma pessoa que está num buraco escuro e grita pra cima, tô presa, tá escuro, tá demais pra mim, e você diz oi, vou descer, sei como é aqui embaixo e você não está sozinho. Empatia é uma escolha, e é uma escolha vulnerável, porque, para me conectar com você, tenho que me conectar com um lugar de mim mesma que conhece aquele sentimento.
Se eu compartilho algo muito, muito difícil, em vez de uma solução pronta às vezes é melhor dizer, "nem sei o que te falar, mas que bom que você me contou", porque raramente é uma resposta que vai fazer as coisas melhores e, sim, a conexão.
A vida é tão rara, como disse o Lenine numa das músicas mais lindas que existem. E isso que eu nem falei da empatia com toda forma de vida, porque esse post já tá, pra variar, comprido de doer...
Vamos nos ver uns aos outros, de verdade <3
Bjs com carinho

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Morrer e saber viver

Oi queridos!
Ontem eu conversava com um amigo sobre uma situação difícil que ele está passando, de doença na família, e isso me deixou pensando sobre o quanto a nossa sociedade é tanatofóbica - nem sei se o termo existe hehe, é só a bióloga em mim querendo dar um nominho específico pra esse medo da morte que impera. Mesmo quem diz que não tem medo de morrer muitas vezes acha o assunto agourento, pessimista. Até o pobre do adjetivo "mórbido" tem uma conotação bem negativa quando usado figurativamente.
Como diria a Funérea...
Claro que a morte em geral vem carregada de situações difíceis e sentimentos fortes, seja pelas doenças que geralmente a antecedem, seja pela ausência e saudade daqueles que vão ou pelo medo do desconhecido que vem depois... mas considerando que a morte física é certa, pra nós e pra todos os que amamos, faz algum sentido ficar negando cegamente o fato? Tenho a impressão de que o que mais dói nas pessoas que ficam, quando alguém amado vai, é a sensação de coisas mal resolvidas, coisas que deveriam ter sido ditas e não foram. Se a pessoa nega que a morte um dia vai vir, ela nunca se dá oportunidade pra essas quitações de pendências, e aí a além das emoções intensas que fazem parte da despedida, ela fica carregada da sensação de culpa e de assuntos inacabados.
Tem uma médica linda que trabalha com cuidados paliativos e palestra muito sobre isso. Ela se chama Ana Cláudia Arantes e é muito fácil de achar vídeos dela no Youtube. Ela cita como os maiores arrependimentos das pessoas que estão tendo que lidar com a ideia da morte próxima: terem vivido a vida que os outros esperavam e não aquela que queriam ter vivido; terem trabalhado demais por dinheiro; não terem tido coragem de expressar sentimentos; não terem mantido contato com os amigos; não terem se permitido ser mais felizes. Deixo aqui a palestra do TED dela, que é maravilhosa e se chama "A morte é um dia que vale a pena viver":
Há um tempo eu fui apresentada por uma amiga muito amada à Elizabeth Kübler-Ross, a médica suíça que estudou muito as experiências de quase morte e que escreveu em 1969 o livro "Sobre a morte e o morrer", em que ela descreve as cinco fases do luto (se vc não conhece essa teoria, leia, é imperdível! Impossível não se reconhecer nessas fases... afinal todo mundo já passou por algum tipo de perda, e parece que a nossa reação segue sempre algo desse padrão). Depois de ler a história da vida e do trabalho dela no livro A Roda da Vida - facinho de achar na net -, ficou muito claro para mim o quanto é necessário tirar o tabu da morte aqui pro lado do ocidente pra que a gente aprenda a VIVER (já que nos recantos de tradição espiritualista do Oriente eles lidam bem melhor com a ideia de que existe um depois e de que o que vale nessa vida é a bagagem passível de ser carregada pro lado de lá). É isso mesmo, lidar de forma realista com a morte é uma ferramenta pra, além de morrer bem, viver bem cada dia até quando fechar nossa fatura por aqui.
Isso porque pra se ter uma morte tranquila ou lidar de forma serena com a morte de pessoas queridas, ao contrário de tudo o que nos diz essa sociedade pós-moderna mucho loca, é necessário colocar nosso foco nessa bagagem imaterial. Nem é necessário pensar no que tem depois da morte: é só pensar na velhice e no que se precisa pra vivê-la com a mente e o coração tranquilos. Eu, que trabalho no INSS e estou sempre às voltas com a ideia de previdência, não consigo deixar de ver essa preparação como uma forma de previdência emocional/espiritual hehe. O capital interior que a gente vai acumulando ao longo da vida é o que vai nos garantir uma idade avançada sem pendências e arrependimentos, pois o caminho do autoconhecimento inevitavelmente vai nos levar pra uma vida mais autêntica, direcionada por nós e não pelo que os outros entendem como apropriado; é o que vai nos ajudar a lidar com as doenças mais frequentes, com as perdas e com a ideia da morte que vai se aproximando. É essa riqueza acumulada que vai impedir que a velhice e a limitação física se transformem em tédio, ou em reclamação constante, ou em sensação de que a vida não tem mais nada a trazer de bom e que dali pra frente é só esperar a morte. Essa é a hora maior de usufruir da resiliência, da paz interior, da sensação maravilhosa de amor pelas pessoas que fizeram e fazem parte do nosso caminho, do senso de propósito que se acumulou na vida.
Então, galera, tenhamos o senso prático de sermos viáveis materialmente nesse mundo, mas não vamos descuidar da nossa bagagem interior. Eu tenho um gosto que as pessoas costumam achar estranho, que é passear em cemitério - de preferência, os de cidade de interior, com espaço para jazigos maiores com muitas coisas escritas. Gosto de ver aquela gente toda que já veio e foi, ver as datas e as fotos e imaginar histórias de vida, é um hábito que me dá perspectiva do quão rápido é o nosso tempo aqui. Se olhar pras nossas vidas lá de longe, daquele ponto em que tudo fica tão pequenininho que não faz sentido sem um propósito maior, é mais importante acumular consciência e amor do que fazer aquela previdência privada que a gente tem como objetivo pra quando as contas equilibrarem. Vamos nos dar o tempo de olhar pra dentro, ainda que a sociedade só nos cobre qual é a próxima pós-graduação que vamos cursar, o próximo concurso que vamos tentar, como vamos melhorar nossa renda pra ter um carro melhor, uma casa maior e coisas do gênero. Quando as pessoas estão pra morrer, elas se dão conta do quão pouco importante é tudo isso de material que a gente passa a vida buscando, essas coisas todas que o nosso ego quer quando se identifica com o que está fora de nós. O meu queridão Eckart Tolle diz em "O Poder do Agora": a grande sacada da vida é esse "morrer" do ego antes da gente estar pra morrer de verdade.
Schopenhauer concorda!
Isso se torna cada vez mais relevante à medida que a sociedade envelhece. É interessante esse fenômeno, que é um resultado do nosso avanço tecnológico e das melhores condições de vida que as pessoas têm hoje em relação aos séculos passados, mas que também acontece bem numa época em que parece que a sociedade cultua a juventude e não tem tempo pra pensar no que fazer com seus idosos... num tempo em que se valorizam as realizações no mundo externo em detrimento do que temos dentro. É assim que funciona: se a gente não aprende voluntariamente, a gente é convocado ao aprendizado - e esse envelhecimento populacional me parece um chamado obrigatório pra desenvolver o mundo interior e voltarmos a olhar pras coisas que o dinheiro não compra e que a aparência não conquista. Que bom :)
Bjos com carinho,


terça-feira, 24 de maio de 2016

A mágica do presente

Oi queridos :)
Estou aqui, depois de uma semana de volta em casa, sentando pra escrever sobre a oportunidade incrível de autoconhecimento que tive nesse mês (update: levei algumas semanas para escrever esse post hehe...).
Passei 21 dias de abril num retiro, sem contato nenhum com notícias, internet, telefone, família, nada. Foi bem interessante a sensação de náufrago retornando pra civilização quando saí, tinha acontecido até votação de impeachment na Câmara, várias mudanças no trabalho, aquele clima de apocalipse na vida política do Brasil - e eu... pensando em quanta realidade eu vivi naqueles dias isolada! Nem que quisesse eu conseguiria me conectar com a loucura imperante na tal conjuntura de crise. Não mesmo. Não tem nada mais real que a nossa essência, e nada que aconteça no teatro do sistema é capaz de afetar o que realmente existe, o que somos. O resto é impermanência de qualquer forma...
Não havia cronograma de atividades para estes 21 dias, apenas uma tarefa: estar presente. Tão simples, e tão raro de vivenciarmos na nossa rotina regular. Já de chegada, todos tinham uma aula sobre essa voz na nossa cabeça (que nós identificamos como "nós mesmos"): esse é o ego, a nossa criança mimada particular. Porque nós... nós somos bem mais que a voz que pensa, a nossa identidade verdadeira está bem mais no fundo de nós, e já foi chamada de infinitos nomes - essência divina, alma, espírito, Eu maior. Só que a matéria é muito boa em nos fazer esquecer desse eu profundo e perfeito que somos e em nos fazer acreditar que somos o corpo e a mente que pensa. O ego gosta de mandar em nós e ele consegue mandar, porque faz a gente pensar que ele é a gente. Então ele diz: quero aquilo lá! E nós corremos para conseguir aquilo. No momento que conseguimos, logo ele se aborrece e acha outra coisa pra querer - agora eu quero aquele outro! E lá vamos nós correndo, achando sempre que nossa felicidade vai estar no próximo alvo. O problema é que nunca vai estar. A felicidade é um estado de ser, não está em nenhuma circunstância externa. E esse estado de ser só é conseguido vivendo o que realmente existe: o agora.
O ego vive remoendo passado, seja em alegria saudosista ou ressentimentos, e projetando futuro, seja pra sentir prazer com a perspectiva de felicidade mais adiante ou pra morrer de preocupação e ansiedade e tentativa de controle do que ainda não chegou. Quando nos identificamos com o ego obcecado no passado e no futuro, mal prestamos atenção na vida preciosa que está dentro e fora de nós nesse momento único da vida: esse segundo que está passando. A nossa mente em funcionamento normal, prática e realizadora, não é capaz de captar a magia da vida. Ela está muito preocupada em fazer, não consegue apenas Ser com tudo o mais que É no universo, e estabelecer uma conexão com o Todo dessa forma. A mente pode até ver uma flor, mas a beleza real dela passa batido; ela é percebida como um fato, até a noção de que ela é bonita, se vem da mente, é uma percepção plana, sem profundidade. Só estando conscientes do momento presente é que conseguimos efetivamente viver a beleza plena e a manifestação inteligente que envolve aquele serzinho.
Só se consegue entrar nesse estado de presença praticando a arte do destronamento do ego. A melhor metáfora para entender o funcionamento dele é a da criança mimada, que definitivamente precisa sair da nossa garupa, onde ela acha que nos governa, para ir para o cercadinho a uma distância segura de nós - e lá, a gente vai conseguir percebê-lo como uma entidade separada do nosso Eu real, e quando ele choraminga por algo, podemos conversar com ele com amor, mas dando limites, que toda criança precisa. Diante dos pensamentos, a arte é observá-los - ao fazer isso, reconhecemos a entidade que pensa, e entramos no papel do observador. O observador olha de longe para os pensamentos e não se identifica com eles, e o que acontece quando a gente faz isso é mágica. O pensamento perde força. A identificação com o ego é essencial para que os pensamentos nos dominem.
Aquela cara de ego!
Exemplo: "aiai que saco que é segunda-feira, uma semana toda pela frente, não aguento mais" vira "hm, meu ego está incomodado que é segunda-feira. Mas por que isso, eguinho querido, se segunda-feira é só uma abstração da sociedade pra mais um ciclo de luz do sol passando a Terra? Se é o trabalho que tá ruim, vamos pensar o que podemos fazer pra mudar, mas até lá reconheça que o que existe no nosso presente é esse trabalho, e choramingar não vai mudar a realidade. Aceita o trabalho como ele é, que até é capaz de você achar que não é tão mau assim".
Existem muitas estratégias para lidar com o ego: ao ver que estamos começando a nos incomodar com as coisas, por menores que sejam essas incomodações, fazer um exercício de trocar as reclamações por gratidão. Enumerar mentalmente ou por escrito tudo o que há de bom na nossa vida nos joga automaticamente pra uma vibração super elevada, que é essencial pra entrar no presente. Dá pra isar qualquer coisa que nunca se parou pra pensar, porque se achou que sempre esteve ali e que sempre vai estar - até coisas esdrúxulas, e assim se aproveita pra dar umas risadas consigo mesmo, porque alegria também nos conecta com o presente: "que bommmm que eu tenho pelos dentro do nariz pros mosquitinhos não irem parar reto no meu pulmão!!"
Abandone o hábito da social de elevador que, se parar pra reparar, é sempre reclamatória. Se for pra dizer "que frio", "que calor", "e essa chuva", "que bagunça a cidade fica antes do Natal né", não diga. O planeta também tem um ego, que fica bem feliz com esse tipo de interação reclamona; todas as pessoas ficam confortáveis pois trocaram palavras, a social foi feita. O ego planetário é o sistema, a matrix, essa que nos empurra pras reclamações da mesma forma que nos empurra pras necessidades artificiais. Não compactue! Sorria, deseje apenas um bom dia, pergunte se está tudo bem. Criar responsabilidade pelas nossas palavras é muito necessário, tudo o que sair da nossa boca (e também o que pensamos) tem consequências vibratórias, é o que estamos dando às pessoas e ao planeta. Felicidade vibra rápido, leve e em alta frequência; reclamação vibra baixo, denso e em baixa frequência. Precisamos doar alegria e amor se quisermos receber alegria e amor, é fato da realidade física.
Outra estratégia é reparar na respiração. Quando estamos aflitos, na maior identificação com o ego num momento sofredor, nosso peito fica oprimido e não respiramos direito. Reparar na respiração e corrigi-la, perceber o corpo e suas tensões nos conecta com o presente e nos tira da emoção pesada. É muito bom ficar o tempo que se conseguir apenas acompanhando o fluxo da respiração, vivenciando a realidade do corpo que funciona tão majestosamente - e se aparecer alguma onda mental pra interromper o momento de observação, siga à distância, olhe de longe e classifique o pensamento. A essência, o Eu superior, manifestação da mesma inteligência que dá vida à florzinha de que falei lá em cima, esse não sofre, não julga, não planeja, não se apega - ele apenas É, manifestando a perfeição da existência. Ele percebe sem reagir de forma impensada. Ele olha para o pensamento que surgir e simplesmente o classifica: "esse é um pensamento revivendo o passado". "Essa é uma tentativa de controle". "Esse é um julgamento bobo". E se estiver difícil de se dissociar da emoção que veio com o pensamento, manda ver na lista de gratidões infinitas. Ajuda muito a subir a vibração! Mas só tomar consciência das emoções densas, com distanciamento, já tira a força daquele sofrimento.
Outras orientações que recebemos nesse primeiro dia de retiro: quando precisar, peça. Nenhum ser de outros planos pode interferir positivamente na nossa vida se não pedirmos, se não dermos autorização, então se tem qualquer força maior em que você acredita, não fique achando que ela conhece sua realidade e pode sair interferindo sempre que achar que as coisas não estão tão bem assim pro seu lado. Temos a liberdade de irmos pelos caminhos do sofrimento se quisermos, sem interferência... então, se quiser ajuda, peça, dê autorização para que eles atuem.
Mais uma: cultivar o silêncio. Passei esses 21 dias no maior silêncio da minha vida, externo e interno. Isso cria com muito mais facilidade espaços de vivência do presente. A introspecção nos conecta com a nossa essência, nos faz realmente vivenciar o que somos de fato. É muito, muito interessante assistir o ego dando chilique e perceber que é só isso, o ego incomodado, e não o nosso Eu real incomodado. Reconhecer que não somos as sensações do nosso corpo, nem as nossas emoções nem os nossos desejos e pensamentos. Dá um outro nível de resiliência, de noção de força interior.
Como vocês podem ver, nada de muito novo nessas estratégias - silêncio, prece, vigiar os pensamentos, não julgar, ser grato... quem já não leu muitas vezes tudo isso? A questão toda é vivenciar. E lá foi um espaço de prática intensiva de tudo isso. Só a prática leva à vivência, e só a vivência que é transformadora. A gente passa tendo contato com as coisas no nível da mente - lemos no livrinho, ouvimos no vídeo, acatamos racionalmente, e não praticamos. Aí não sentimos o quanto aquela prática simples pode mudar a vida. O negócio realmente é trocar a intelectualização das informações pela vivência.
Tem um livro que nos é sugerido lá que se chama O Poder do Agora, do Eckart Tolle. Foi escrito logo depois da virada no milênio e é super best seller, inclusive se acha fácil pdf na net. Ele explica com detalhes como entrar no agora e sair do sofrimento, é FABULOSO. É a base dessas instruções que recebemos no primeiro dia do retiro. Eu sugiro esse e as Sete Leis Espirituais do Sucesso logo depois, do Deepak Chopra. Eu fiz um resumo dos dois livros, estão nos links aí nos nominhos dos livros.
Quando se reconhece a impermanência do que está fora, a gente percebe que o principal que podemos fazer pelo planeta é sermos nós muito felizes na essência, conscientes e pacíficos, e emanar essa vibração às pessoas na nossa volta, ajudando assim no despertar delas também. Essa felicidade e essa paz, modificadoras da realidade, estão na frequência do presente. É simples, e funciona.
Eu queria muito compartilhar essa experiência aqui pois é o que realmente é transformador. Quando se vivencia essa vibração de amor e paz superiores, coisas mágicas acontecem, a gente realmente entra num estado de graça, de êxtase com o universo e sua lindeza, de cocriação  de realidade e sincronicidades sem fim, tudo conspira a nosso favor e a gente nem se sente mais tão presa das nossas necessidades básicas e até fisiológicas. Tem pessoas que usam esse estado pra não precisar comer tudo o que comemos normalmente, tem pessoas que passam a dormir menos, pessoas que conseguem controlar a dor e se curarem de problemas físicos, pessoas que passam a ter tanta certeza da abundância do universo que não mais passam necessidade financeira. Assim é!
Esse texto é muito, muito lindo e explica bem esse nível de consciência superior que treinamos para alcançar no retiro. Para quem já ouviu falar nele como Processo de 21 dias e me perguntou como é, escrevi aqui com maiores detalhes sobre a parte prática da cura física, emocional e mental que se processa. Esse formato foi divulgado no início dos anos 90 por uma australiana chamada Jasmuheen, em um livro chamado Viver de Luz. A questão alimentar do retiro causa uma certa estranheza nas pessoas, e eu busquei nesse post não focar nisso, pois a forma é só um meio para exercitar essas simplicidades transformadoras da vida que eu comentei aí em cima. A gente ainda tem esse hábito de se apegar mais na forma que no conteúdo, né, mas estamos na caminhada hehe! Quem sentir interesse por mais detalhe ainda sobre a parte prática por estar pensando em fazer, quiser o contato do lugar onde fiz, quiser trocar ideia a respeito, estou super à disposição! Só mandar um email ou mandar um oi no facebook.
Com desejos de cada vez mais despertar no nosso planeta lindo, cada vez mais responsabilidade pelas escolhas, cada vez mais paz e amor reais, eu abraço bem apertado cada um!
Bjs

domingo, 20 de março de 2016

O que um assalto tem de bom?

Oi queridos!
Só pra não deixar a pergunta na expectativa de resposta, claro que um assalto não tem nada de bom. Mas pode ter de útil. E útil, dependendo do que a gente definiu com objetivo de vida, pode ser bem bom, no fim das contas!
Esse fim de semana estou tendo aula da minha pós-gradação em saúde e espiritualidade e o assunto esse mês é a relação da espiritualidade com a psique na visão junguiana. Gosto muito do Jung e do entendimento que ele tem do Universo como sábio e movido por finalidade - foi ele quem cunhou o termo sincronicidade, que eu uso muito. A sincronicidade é uma aparente coincidência entre fatos sem relação causal, mas que se atraíram mutuamente devido a um propósito. Então se busca entender nessa forma de terapia o que estamos atraindo de experiências para a nossa vida, e o que essas experiências estão querendo nos mostrar do comportamento do nosso ego e de necessidade de mudança, em direção a uma vida mais plena, mais em acordo com a consciência superior que existe dentro de nós (que o Jung chama de "self").
Aí pensei, durante a aula, no quanto a vivência do assalto que sofri esses tempos foi um exemplo de sincronicidade: eu levei muito tempo pra entrar na vida de pessoa com smart phone, e só entrei porque herdei um telefone usado da minha mãe, há quase dois anos. E logo depois iniciou todo o movimento de consciência que gerou esse blog e muitas mudanças na minha vida, e o telefone se tornou um meio de usar cada momento do meu tempo pra não perder toda a gama de informações emancipadoras que cada vez mais chegavam até mim. Sem eu me dar conta, estava entrando naquela cilada da ansiedade por medo de perder o que tá acontecendo, tava sempre com a lista cheia de artigos para ler, sobre assuntos que me interessavam, e sempre justificando, para mim mesma, que aquilo era bem importante pra minha vida. E ao mesmo tempo eu estava chegando num ponto da mudança que estava requerendo uma aquietação, uma atenção a práticas meditativas que eu não estava conseguindo encaixar na minha vida de muitos cursos, muitas oficinas, leituras, posts, trocas de informação. Aí, numa tarde, depois de mais de ano e meio de intensa atividade, o celular que a mãe me deu, que há algum tempo estava ficando lento e ruim de usar, teve morte súbita, e eu saí do trabalho direto para a loja para comprar um novo, e de noite já tava conectada & aliviada de não ter ficado mais do que algumas horas sem contato com as minhas fontes de informação transformadora. Nem lembrava que há dois anos eu achava bem improvável que alguma vez na vida eu fosse gastar mil reais num telefone - nem questionei a compra, que eu apenas senti como uma necessidade básica da minha vida como ela vinha acontecendo.
Nesses últimos dois anos andei muito em Porto Alegre, mas muito mesmo, transporte público direto, de dia e de noite, e sempre me senti muito protegida pela minha "bolha de luz", vibrando positivo e conscientemente emanando confiança e amor e sabendo que não iam me acontecer coisas ruins por estar exposta - já que eu de qualquer forma ia fazer meus cursos e oficinas e ia usar o transporte público, vibrar positivo era o melhor que eu podia fazer pra ficar segura, certo?
Até que, pouquíssimo tempo depois de eu trocar de celular, e num dia em que eu estava triste com algumas coisas e em que nenhuma vez eu foquei em me proteger energeticamente para estar na rua, me vem um cara e me assalta na Redenção, num sábado às 8 da manhã, indo para a feira orgânica. Pela média dos relatos das pessoas que vivem assaltos, foi totalmente sem maiores danos - celular, dinheiro, aquelas ameaças de sempre, cada um pro seu lado.
A gestão interior da experiência do assalto não é o foco do post, mas vale um parágrafo. Depois que o guri que me assaltou foi embora, fui em direção ao centro de Porto Alegre pra vir pra casa e no caminho fiquei conversando com ele mentalmente pra me acalmar, dizendo que eu sabia que certamente a vida dele não era fácil pra colocá-lo no ponto de revolta ou desespero de alguém que rouba, e que eu sabia que ninguém quer ter que viver assim, e que eu entendia que aquilo era fruto de uma sociedade de aparência e excludente, que faz todo mundo acreditar que as posses é que fazem alguém ser alguma coisa na vida... e que eu torcia pra que um dia ele conseguisse superar a violência que a sociedade o impôs, pra ele conseguir não mais reagir com violência de volta, e que eu tinha certeza de que um dia a gente teria oportunidade de desfazer aquele contato pesado, de medo do meu lado e agressão do dele, e transmutar em algo positivo, e que começasse desde já essa transmutação. Fiquei um bommm tempo nesse exercício pra superar a fragilidade que eu fiquei sentindo, a sensação de vulnerabilidade, mas em nenhum momento eu senti revolta ou nada de ruim em relação a ele. Sou bem convicta da minha forma de ver a violência como produto natural da nossa sociedade doente, é o que todos nós cocriamos mais ou menos intensamente ao fazer parte dela.
E, voltando pra sincronicidade: depois de andar quase 2 anos com um caco velho de celular e nada me acontecer, troco por um celular novinho e bonzão e em duas semanas me levam ele embora. O que aquilo queria me ensinar?
Foi bem fácil de perceber, porque veio a maior crise de abstinência nos dois dias que fiquei sem celular. Dessa vez eu não saí correndo pra compra um celular novo pois eu vi que precisava refletir no que tinha acontecido, resolvi me observar antes de qualquer coisa. Foi uma lição óbvia de que havia um apego que eu estava tentando justificar racionalmente pela minha "louvável" vontade de aprendizado. Ao me dar conta disso, já resolvi simplificar minha vida online - peguei um celular bem mais simples que minha sogrinha tinha sobrando (gratidão!), troquei meu plano do celular para um bem básico também, tirei o recebimento de notificações no facebook das atualizações de grupos e páginas do meu interesse, e resolvi que tudo bem se eu perder as atualizações do mundo da sustentabilidade, vegetarianismo, nova era, terapias. Tudo bem. Desapega, Fê: ninguém pode saber de tudo e o que for bem importante pro meu caminho, sei que o Universo vai dar um jeito de me mostrar. Controle é ilusão. Eu já acumulei mais informação do que fui capaz de metabolizar nesse período, a minha necessidade de desacelerar e internalizar as experiências e aprendizados adquiridos era tão óbvia, só eu não conseguia ver, aí o Universo providenciou um assaltinho pra eu acordar :)
Desde então estou passando 10% do tempo de antes na internet, e isso me devolveu o tempo de descanso do qual eu havia abdicado e eu pude perceber o momento de introspecção que estava iniciando - outra sincronicidade: tudo isso foi um mês antes de um retiro longo que farei no fim de março, que será um evento bem extraordinário na minha vida. Fui desacelerada no momento certo, a tempo de preparar o coração e a mente para a vivência absolutamente interior que virá nesse retiro.
Eu, que sou movida por propósito, afino plenamente com a ideia de um universo que interage comigo por forças finalísticas - o que me acontece, não acontece necessariamente por merecimento, mas sempre por finalidade, por necessidade de aprendizado. A minha necessidade que atrai os acontecimentos que servirão de algum propósito na minha caminhada, a minha consciência superior constela esses acontecimentos pois ela me direciona inevitavelmente ao crescimento - se eu não percebo os alertas mais sutis, vem um mais óbvio.
E eu ando, sim, meio sobressaltada na rua quando alguém me aborda, coisa que eu nunca senti - sei que é reflexo do assalto e que com o tempo vai passar.. mas, fora esse efeito colateral, posso dizer que foi exatamente a experiência que eu precisava naquele momento.
E vou então ao retiro, com o coração bem mais em paz, a mente bem mais quieta, com lindos prospectos para esse meu novo ano que inicia - porque hoje é meu aniversário :-D
Bjs, com carinho da Fê.

terça-feira, 8 de março de 2016

Dia de pensar sobre o feminino

Bom dia, queridos!
Esse dia 8 de março sempre me deixa reflexiva, com as mensagens de parabéns e flores e vocês são incríveis por se desdobrarem em mil e fazerem tudo isso com graciosidade, uau.
Não, não - por favor, nosso mundo precisa chegar na raiz do problema. Existe um problema muito sério com o princípio feminino no nosso mundo. Que esse seja um dia de refletir sobre isso. Deixo o Prem Baba fazê-lo, porque ele o faz maravilhosamente. Ele sabe tão profundamente o quanto esse problema é raiz de sofrimento no mundo que fala sobre isso repetidamente. Deixo alguns trechos e links, para quem queira aprofundar.
E deixo também meu desejo de que nos curemos e manifestemos cada vez melhor nossas energias feminina e masculina pra criar um mundo de amor e troca verdadeira e honrada!
Bjs

Flor do dia 07.12.2015
“As distorções dos princípios vitais feminino e masculino, que se manifestam como agressividade e submissão, nascem da necessidade de retirar energia do outro. Energia significa amor – essa é a energia que alimenta o universo. O desamor é o que gera as distorções. Assim, a entidade humana, movida pelo desamor, passa a vida tentando conquistar o amor, mas tudo o que ela consegue é gerar mais desamor. O submisso gera mais ódio no agressivo porque ativa nele a violência do masculino distorcido; e o agressivo ativa ainda mais a submissão do feminino distorcido. Esse é o núcleo da guerra neste planeta.” Sri Prem Baba
"Você quer saber mesmo como está uma nação, observe a relação dela com a mãe. Vamos traduzir mãe como o feminino. Como você se relaciona com o sagrado feminino? Você homem, você mulher. O sagrado feminino que se manifesta de muitas maneiras, como a sua mãe que te deu a vida, como as mulheres em geral, com seu próprio corpo físico que é também uma manifestação da mãe divina, a própria natureza e todas as suas manifestações e tantas outras formas, cito apenas os mais óbvios.
Você pode honrar o sagrado feminino? Você pode sinceramente reverenciar o sagrado feminino? Você pode considerar o feminino sagrado?
O descaso com o seu corpo físico é o mesmo descaso com a natureza porque seu corpo é uma representação dela. Os rios são as veias e assim por diante. O oceano é o seu coração. O que você tem colocado pra dentro do seu corpo? O que você tem colocado nos rios do seu corpo? Plástico, metal, químicas diversas. É interessante que possamos refletir sobre este processo destrutivo que embora muitas vezes possamos considerá-lo como ilusório, está nos destruindo. É ilusório, mas você continua identificado com ele e você reage a partir dele. Você está identificado com o ódio e age a partir do ódio. Me parece que, o que realmente é nocivo, é a sua inconsciência em relação a esta identificação. O que é nocivo mesmo é a ignorância que faz com que você não admita a responsabilidade por esta destrutividade." (esse texto inteiro é maravilhoso, transcrição de um satsang em 2009)
"Às vezes, você realmente manifesta o sagrado feminino e consegue aceitar o fluir (este é o princípio feminino original). Quando esse princípio é distorcido, ele se transforma em submissão e vitimismo. Essa distorção acontece na infância, na sua relação com a mãe. No momento não estamos lidando com o princípio masculino, que é a força de ação que, quando contaminada pelo ódio, transforma-se em violência. Mas, esse não é o assunto do momento. Nesse momento, estamos tratando da afinação com o feminino. (...)
Como esse feminino distorcido age em você? Como você se faz de vítima e se põe a reclamar da vida? Como você tenta fazer o outro sentir-se culpado pela sua infelicidade? Como você tenta forçar o outro a te amar, fazendo-se de impotente e coitado? Como você tenta escravizar o outro com a sua máscara de impotente e carente? Como você joga culpa na porta do outro, pela sua incapacidade de amar? Isso são distorções do feminino dentro de você, e você já tem condições de avaliar. Veja como você se coloca na posição de dependente ou codependente do outro; se você precisa que o outro seja infeliz para sentir-se forte. E fazendo isso você alimenta o vício no sofrimento do outro. Você alimenta esse vício, porque isso te dá um senso de identidade. Quem é você sem esse vício ou essa imperfeição do outro?
Veja as diversas formas que a distorção do feminino age através de você. Essa avaliação tem muito valor. Isso pode realmente fazer diferença na sua vida." (satsang em 2013)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Abraçando minha humanidade

Oi :)
Hoje eu acordei amando muito minha humanidade. E achei que era um bom momento de escrever aqui no blog sobre isso!
Fiquei um bom tempo sem postar, aí hoje, ao acordar tão apaziguada comigo mesma, com minhas dificuldades, minhas dúvidas, com minhas buscas e mudanças, sentindo tanta autoaceitação, me dei conta de que provavelmente foi a primeira vez nessa jornada de tomada de consciência em que isso aconteceu naturalmente e não como um pensamento forçado, como algo vindo do racional tentando ser introjetado no emocional. Que alegria sentir assim sem esforço!
Agora que PASSOU, acho até difícil revisitar o tanto de conflito que senti na época do meu último post. Uma crise completa de validação das mudanças de hábito a que eu estava me propondo.
Eu fiquei umas duas semanas naquele estado de observação dos meus sentimentos, tomando consciência do que estava acontecendo, tentando definir exatamente o que eu tava sentindo, e sem saber o que fazer pra mudar aqueles sentimentos densos. Foi difícil reconhecer e aceitar o motivo: após tantas mudanças práticas derivadas de ampliação de consciência, eu me dei conta de que não estava nada feliz com meu dia-a-dia. 
Sentimento de vida pesada e difícil de se viver, de insatisfação constante comigo e com o mundo, de dissociação completa das pessoas, mesmo as muito amadas - das quais eu recebia com frequência incompreensão e crítica, ainda que em tentativa amigável e amorosa de me trazer de volta pra normalidade. Eu acabei me vendo tão agoniada por ter que dizer não para as comidas que me ofereciam, ter que me explicar, aguentar as reações das pessoas, que fui perdendo a vontade de estar presente nas confraternizações, até as festinhas rápidas no trabalho viraram um suplício, eu só tinha vontade que não lembrassem de me chamar pra ir. Mas tb me sentia mal por não ir, porque é claro que eu gosto de confraternizar, ora bolas!
E uma das maiores solidões era me sentir diferente e não fazendo parte mesmo no meio das pessoas que eu admiro, que buscam ideais próximos aos meus. Vem forte a lembrança de um almoço na ONG de permacultura que eu amo muito, em que todos comeram lasanha de brócolis felizes e eu levei lentilha germinada. E tava frio pra caramba. Eu comendo a lentilha e olhando o vapor subindo da lasanha, pensando que uma comida quente iria muito bem, mas reforçando a lembrança de que a lentilha era melhor pra minha saúde, e sentindo o frio emocional de me achar diferente de todos quando a minha vontade real bem escondida era ser totalmente parte, mesmo ciente do glúten, e do cozimento, e do queijo. Doeu sentir essa dissociação justo naquele meio, que era cheio de pessoas amorosas e conscientes buscando uma relação melhor com o nosso meio, bem o que busco pra mim tb!
E não só, uma parte muito humana de mim também queria o direito de numa confraternização comer alguma coisa gostosa, mas, claro, ou eu levava a minha própria comida (e tinha que gastar tempo antes preparando, embalando, levando, e ressaltava a diferença entre mim e os outros) ou não levava e não comia o que tinha, passava a água enquanto todos se deliciavam, e além do bombardeio de perguntas e comentários sobre o meu não comer, ficava privada de a confraternização ser um momento divertido e leve e de comer algo especial (parece aqueles lugares cheios de doces lindos em que a única opção vegana é uma salada de fruta desmanchando de velha, ou restaurante que a única opção vegetariana é só feijão arroz e alface, que dá um sentimento de punição por vc seguir uma conduta alimentar diferente). Quanto recalque eu tava engolindo, né?
E vi que, enquanto ainda inconsciente de tudo isso, eu me protegia desses revezes e embates me reforçando cada vez mais nos meus ideais, no mundo que eu queria ajudar a construir. Comecei a ficar cada vez mais cuidadosa com a minha geração de lixo, com os meus produtos de limpeza e higiene, com a origem da minha comida, pra que nada tivesse tóxicos, pra evitar ao máximo criar dano pro planeta e pra saúde. Fui lendo e estudando cada vez mais sobre esses assuntos. Isso foi me dando cada vez mais trabalho, eu fui me impondo uma rotina espartana pelo bem comum e pela minha saúde, que me ocupava muiiiiito tempo. Praticamente todo o meu tempo. Vivia com a lista de tarefas cheia e com a sensação de sempre ter muito pra fazer, muito pra aprender e mudar nos meus hábitos para ter a coerência que eu tava buscando... não me dava tempo pra descanso nem pra exercitar a espiritualidade nem pra amar, falar de amor, ler poesia, essas coisas que alimentam a alma de beleza.
Então, além de não confraternizar mais, não comer fora, não encontrar pessoas, eu passava todo o meu tempo livre estudando, fazendo meus produtos, indo atrás das matérias primas e das feiras orgânicas (nenhuma perto da minha casa), preparando meus alimentos, organizando meus potinhos quando tinha que comer fora de casa, devolvendo potes e sacos aos locais onde eles seriam utilizados de novo, e vendo formas de eu também reutilizar, substituindo meus plásticos por vidros, uma trabalheira sem fim. Fiquei tão cricri que se eu esquecia minha caneca, me recusava a tomar caldo de cana na feira, que eu adoro, só pra não gerar mais um copo plástico descartado. Resultado: mais recalque. Tão "correta" nos meus hábitos, às custas do meu descanso, do meu lazer, da graça dos momentos de confraternização, vivendo o "sacrifício que valia a pena", eu não conseguia não esperar dos outros que acordassem e se esforçassem também, e fui perdendo total a identidade com a humanidade. Eu lá me debatendo com a vontade de tomar o caldo de cana e com a culpa de gerar um copo descartado, olho pro lado e tem uma baita lixeira com centenas de copos de pessoas que tomaram o caldo de cana bem felizes. Nesses momentos eu percebia o quanto aquele sacrifício todo que eu fazia era inútil se uma quantidade maior de pessoas não acordasse também. Em vez de eu aceitar o passo de cada um, isso foi me deixando num estado horrível de julgamento. Só via o ruim do mundo, o quanto o nosso hábito de vida estava imerso em engano e auto-engano, interesses escusos e má-fé do poder econômico, intoxicação de todos os tipos, acomodação das pessoas diante das evidências, com uma agudeza que parece que só emerge quando nos dissociamos por completo daqueles processos; fui perdendo a empatia e a conexão com as pessoas, me peguei pensando: claro que sofrem, fazem tudo errado e quando ouvem falar de algo diferente, que pode gerar mais saúde e um karma mais positivo pra vida, não dão bola, porque é difícil, porque é menos cômodo...
Fui perdendo a capacidade de ver beleza e sentir aquele amor universal transbordante que eu amo sentir, não tava mais sentindo a manifestação divina perfeita na vida. Sério. Durante a crise, tive momentos de pensar, não acredito que só mudar alguns hábitos possa ter interferido tanto na minha sensação de pertencimento, afinal é só comida e lixo, puxa vida, não é o centro do universo! Ouvindo de fora pode parecer a maior piração, mas é impressionante vivenciar o que pode acontecer quando a gente se propõe a romper com o comportamento padrão e segue vivendo em sociedade.
Quando eu consegui enxergar mais claro tudo isso, vi que tinha que mudar. Entendi que, se for um fardo pesado demais, não tá na hora, ou não é o caminho. Caminhos do coração sorriem para nós, mesmo que sejam de disciplina.
Diante da crise toda e da sensação de infelicidade, resolvi testar voltar a comer ovolactovegetariano nas confraternizações e não me estressar tanto com a geração de lixo e os produtos que uso, comprar produtos sustentáveis em vez de fazer todos. Essa decisão foi tb bem sofrida, eu senti que estava traindo o que acreditava, que estava me acomodando, me conformando ao errado, enfim... fiquei exercitando o chicotinho nas minhas costas hehe, me cobrando por tentar deixar de lado o ideal da perfeição. Mesmo com essa autocobrança e sensação de culpa, eu aceitei flexibilizar, pq tava muito infeliz na minha bolha de coerência.
E deu certo :) Hoje eu vejo bem claro que eu precisava sair daquele estado de coerência militar pra conseguir escapar da ótica de julgamento e deixar o amor entrar, pra voltar a ver beleza e a me identificar com as pessoas. Eu estava excessivamente focada na matéria, em como me portar exteriormente, a ponto de não me sobrar tempo pra cultivar as coisas que alimentam o espírito. Imagine se tudo o que eu conseguisse ver das pessoas lindas que estão no meu caminho fosse o lixo gerado, o consumo de laticínio/açúcar/comida cozida? Como eu ia me perceber recebendo tantas dádivas se meu olho seguisse focando só a crítica à nossa sociedade, quando ainda vivemos uma transição na forma de nos relacionar com a Terra e com o alimento?
Precisei frear minha sede de mudança exterior para sentir de novo que sim, essa é a minha humanidade, é meu também o karma coletivo que acumulamos nessa sociedade, não faz o menor sentido eu me sentir isenta ou alheia à nossa coletividade por ter feito há algum tempo algumas mudanças de hábitos, por me esforçar pra fazer diferente. Eu só consegui enxergar tudo isso de novo depois que me permiti participar dos momentos de lazer com as pessoas que amo, rir com elas, comer com elas o que tivesse de opção ovolacto na festinha (pq ovolacto sempre tem!), e isso me desligou a chavinha do julgamento como eu não estava conseguindo fazer enquanto eu era a única só tomando água na mesa, esforçada por um mundo melhor, aguentando as perguntas do pq eu não tava comendo, enquanto todo mundo confraternizava com o bolo de aniversário. Ao aceitar minhas dificuldades, aceito as dos outros tão mais fácil! Sim, ainda sou assim em relação à alimentação e sustentabilidade... paciência! No trabalho já é bem mais fácil trabalhar bastante sem me importar se os colegas estão trabalhando mais ou menos. Cada um deve ter mais facilidade/dificuldade em alguma área, né? Estou me aceitando! Se eu quiser tomar um caldo de cana e não estiver com caneca na bolsa, posso tomar mesmo assim, posso consumir um copo plástico eventualmente, não mereço ser tão rígida comigo mesma. Quando, durante a crise, fui contar para uma terapeuta que eu sentia culpa por não conseguir ser 100% não geradora de resíduo, 100% crudívora, só faltou ela rir da minha cara - "peraí, deixa eu entender: tu não fuma, não bebe, não usa drogas, não come carnes, e tá em crise por causa dos teus maus hábitos? Sério mesmo?" Na hora fiquei bem surpresa, sentindo que ela tava fazendo pouco caso do conflito que eu tava vivendo, mas depois me dei conta que era bem isso que eu precisava sentir tb, parar de querer perfeição e viver com mais leveza o que eu já tinha alcançado, sempre com o espírito e a consciência de seguir melhorando, mas sem autocobrança excessiva.
Durante o período mais espartano de alimentação viva, eu consegui me isolar da minha maior fragilidade, que é o vício alimentar em laticínios e açúcar, mas a que custo? Me isolando também do convívio - me separando de tudo o que há de ruim, mas tb do q há de bom. Pq sim, as pessoas comem pizza mas tb amam, se esforçam por serem melhores, buscam ser corretas e caridosas, cantam e dançam, amam a vida. Eu senti muita falta de poder compartilhar as coisas boas sem que as coisas ruins me tirassem toda a graça de viver os momentos de estar junto. Voltando a me permitir comer ovolactoveg nas confraternizações, de novo eu tenho que lidar com ter a opção de comer meus vícios no meu dia-a-dia, e eu sinto que viver essa minha fragilidade me liga ao todo, me faz sentir parte dessa humanidade que se esforça sim mas que não é perfeita, que tenta, que erra, que tenta de novo. Estou sentindo de novo, em vez de só racionalizar, que tá tudo perfeito, tá tudo no lugar em que tem q estar, voltei a naturalmente confiar e entregar que vai dar tudo certo, que a espiritualidade tá se encarregando dos processos, que a crise em todos os aspectos que estamos vivendo é parte da depuração e que o nosso destino é a perfeição. NOSSO destino. Quero ir de mãos dadas com meus irmãos que compartilham a Terrinha comigo, focando no que nos une em amor, e não nas nossas ainda falhas - inclusive, a nossa imperfeição é algo que nos aproxima hehe, ninguém é nem perto de perfeito nesse plano :)
Antes de sentir mais firmeza na escolha de flexibilizar hábitos, várias coisas ficaram lutando dentro de mim - como seria mudar de ideia publicamente, não poder mais me chamar de vegana, e como reagiriam à notícia as pessoas veganas que conheci nesse ano (muitas, muito amadas, que conheci pela internet e com as quais tenho praticamente só contato virtual). Aí me dei conta de que não deveria me ater a isso... minha prestação de contas é com minha consciência e eu sigo fazendo o que posso pela minha saúde, pelos animais, pelo planeta, do jeito que posso pra também ser feliz, dentro das minhas circunstâncias. Por exemplo, ter o círculo profissional e pessoal com pessoal simpatizantes do veganismo é uma circunstância facilitadora; e essa não é a minha realidade. E é muito, muito cara para mim a troca real com as pessoas... e a conexão é necessária para que a troca aconteça. No meu dia-a-dia, eu só convivo com pessoas tão absolutamente convencionais em seus hábitos, que têm no ovolactovegetarianismo o limite da mudança de hábito compreensível... antes eu devia parecer tão ET com meus potinhos ou só na água que eu sentia muitas vezes um bloqueio também na conversa, como se a pessoa me ouvisse já pelo filtro do "tudo isso é muito radical". Sinto que me tornei mais acessível a essas pessoas sendo ovolactovegetariana, que consigo me conectar melhor com elas agora, que bons frutos têm surgido dessa conexão. Não tem preço ver alguém repensar seus hábitos através do nosso exemplo. Então aceito, entrego, confio, perdôo, para conseguir amar um pouquinho melhor. E sei que sou muito menos danosa pro planeta, pros animais, pra minha saúde do que era quando parei com a carne e tinha um consumo bem frequente de ovo e lácteos, já que hoje o consumo é eventual, nas circunstâncias de grupo e de ambiente.
Acho que a maior lição dessa jornada foi a importância de largar o chicotinho, rsrs... parar de esperar nada menos que a perfeição na minha conduta, aceitar que o mundo e eu não somos perfeitos e que tá tudo certo mesmo assim, deixar as minhas mudanças emergirem de dentro em vez de impô-las de fora, aceitar minhas dificuldades e meu passo evolutivo. O pefeccionismo tava me fazendo sentir cheia de autorreprovações. Sigo com os mesmos ideais, mas aprendi a ser mais flexível comigo e com as situações.
Esse mês aconteceu uma coisa bem linda pra mim. Fui pela primeira vez na sede de Porto Alegre da Self-Realization Fellowship, para a comemoração do aniversário do Yogananda, amado guru que foi uma das descobertas de muito amor dos últimos meses, e ao fim da cerimônia apareceu um bolo (visivelmente com lácteos). Todos conversando em rodinhas, aproveitei para perguntar sobre as atividades do grupo, e, enquanto conversava, um rapaz veio na minha direção e me ofereceu uma fatia de bolo no guardanapo, com um sorriso tão aberto e amoroso que me deu muita, muita alegria em poder aceitar. Aceitar aquele amor, aquele momento, aquela confraternização em nome do guru querido, aceitar fazer integralmente parte daquele grupo tão afim das minhas intenções para essa vida, tudo manifesto no poder dizer sim àquela fatia de bolo. Depois do intenso debate interno de toda essa jornada dos últimos meses, foi um momento muito simbólico e libertador pra mim. 
Eu sigo acreditando e promovendo o veganismo como alimentação mais promotora de compaixão, sustentabilidade e saúde, sigo vegana na minha geladeira e no que entendo como futuro da humanidade, mas agora eu abro exceções pelo bem dos meus vínculos e alegria de viver. Aceitando comer ovolactoveg nas confraternizações, as festinhas deixaram de ser agonia pra mim, me divirto e as conversas seguem promotoras do bem e de novas formas de ver a vida. E sigo buscando o equilíbrio e a coexistência pacífica com o açúcar e com as comidas menos saudáveis, meu calcanhar de aquiles bem assumido, bem aceito e reconhecido (afinal a gente precisa acolher nossa sombra pra que ela possa ser iluminada e transmutada em algo melhor). Buscando equilíbrio, aceitação, flexibilidade.
Com amor e com leveza... sigamos!
Bjs