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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Não vai parar até você aprender

Oi :)
Esse post é um mea culpa pro Universo, pra mim mesma, não sei. Um reconhecimento de humanidade, um desabafo, um acolhimento da minha dificuldade.
Quero contar sobre a vivência mais profunda de expectativa e frustração que acho que já vivi, e que estou vivendo, e a ressignificação que estou fazendo com essas experiências "ruins".
Faz um ano e meio eu decidi que quero voltar para o interior. Voltar, porque quando vim pro RS de Brasília depois de 4 anos morando lá, em 2011, eu já havia decidido que queria uma cidade menor do que Porto Alegre, onde me criei. Foram uns anos morando em cidades pequenas, e as circunstâncias me trouxeram de volta para a região metropolitana de Porto Alegre, no início de 2014. Esse retorno à muvuca foi um movimento muito, muito importante na minha vida e abriu um campo vasto de oportunidades e aprendizados que me ajudou a chegar a quem sou hoje - foram oficinas, cursos, vivências que dificilmente eu teria tido fora da região metropolitana, mas as mudanças foram exatamente me direcionando a uma vontade maior de interiorização, por dentro e por fora - mais contato com a natureza, rotina mais natural e simples, menos fuligem, barulho, radiação, uma horta, menos dependência de dinheiro, honrar e nutrir o que é vida de verdade nessa vida, enfim... esse voltar para o interior que eu quero hoje é muito mais cheio de significado, beleza e ideologia do que foi o ir para o interior de 2011. 
E esse último ano e meio foi então de tentativas de achar uma rota de ida para o interior. Trabalhando num órgão público com agências espalhadas por todo canto, o objetivo se tornou conseguir uma remoção. As primeiras tentativas inocentes foram assim: olhar o mapa, escolher um lugar, conhecer o lugar, gostar e depois ver se tinha como conseguir uma remoção pra lá - só que num órgão com carência de pessoal, só se consegue liberação mediante permuta, na prática. Então, depois que vimos que não adiantava só escolher pelo nosso gosto, passamos a procurar lugares em que tivesse gente disposta a vir trabalhar onde trabalhamos hoje. Em fevereiro de 2016 encontramos duas pessoas, conhecemos a agência delas, fizemos os processos de pedido de remoção, tudo certo - e enquanto os processos eram instruídos (coisa que leva uns meses), fiz tudo o que não era pra fazer: vivi totalmente no futuro, procurando sítios na minha futura cidade, já imaginando em detalhes como seria a vida lá. Aí, 60 dias depois, uma das pessoas que iam trocar com a gente desistiu e a remoção não saiu. Um baque de início, e a noção clara de algo óbvio: não existia remoção em nenhum momento desses 60 dias, e eu fiquei vivendo aquela realidade que ainda não existia. Vivendo bem fora do presente.
Depois disso foram dois meses de muita dúvida sobre o que fazer da vida, de falta de identificação com o local em que eu estou vivendo, muitas especulações sobre o que tentar diante dessa dificuldade de precisar de duas pessoas em algum lugar dispostas a virem trabalhar onde trabalhamos hoje, até que surgiu uma outra possibilidade. Mais uma vez, visita agência, conversa com chefias, monta processos de pedido de remoção, faz as contas de quanto tempo vai levar pra ser analisado. Tava tudo bem certinho entre as pessoas envolvidas, e pelas minhas contas os processos estariam prontos pra decisão no início de setembro. Eu de novo caí na tentação irresistível e já tava visualizando a vida na minha futura cidade, o sítio, as plantinhas, a canga na grama lendo no solzinho do fim de tarde etc etc. Aí em setembro fiquei sabendo que, por causa dos mutirões que sempre acontecem em outubro, por causa da nossa avaliação de desempenho semestral, os processos só iriam para análise em novembro. Mais um baque, mais um tempo aqui.. ok, são só dois meses a mais, tudo bem, tudo bem, o que importa é sair a remoção. Segue a vida, seguem os planos, segue a expectativa. Aí, fim de setembro, a notícia: um dos colegas contou que tava saindo do INSS pra assumir em outro órgão em que foi nomeado. Não ia mais ter remoção, de novo...
E agora?
Contei a história resumida o suficiente pra não ficar cansativo demais, mas teve muitos & muitos capítulos menores e não é exagero dizer que o enredo principal da minha vida no ano de 2016 foi a tentativa de ir embora de onde moro hoje. Claro que muitas coisas aconteceram enquanto isso - viagens, retiros, aprendizados (muitos deles com temas que reforçaram a vontade de ir para o interior), minha pós-graduação que acabou de acabar, momentos importantes vividos no trabalho aqui. Mas sem dúvidas o objetivo maior era a mudança - a mudança geográfica, mas também as muitas idealizações de mudança de hábitos e de rotina que vinham na bagagem.
Só que... com a mudança geográfica não acontecendo, eu fui empurrando todo o resto com a barriga, a rotina e os hábitos viraram um apenas esperar e se distrair. Como eu "já tava indo embora mesmo", não me mudei do apartamento em que moro e que é um bunker de concreto, um isolamento completo da terra e do céu com problemas sérios de infiltração, para alguma casa onde eu teria ao menos um pátio pra plantar e uma varanda pra ler na rede; não inaugurei bons hábitos que pareciam que seriam bem mais fáceis lá no ambiente perfeito, no sítio do futuro; não iniciei nenhuma atividade regular por prazer, aqui na cidade, imaginando que não poderia depois dar continuidade, porque já tava indo embora.
Pensa só: eu já escutei tanto sobre a importância de viver o agora. E foi tudo o que eu não fiz. Eu vivi muito o futuro nesse ano de 2016. E a expectativa cria inquietação e ansiedade. E ansiedade pra mim vira compulsão alimentar (minhas calças jeans já tão sabendo que tá sendo um ano difícil!)...
Vejo todo esse histórico e vem na minha cabeça a Aimee Mann cantando: "It's not going to stop till you wise up", algo como "não vai parar até vc aprender". Esse wise up é uma expressão interessante, wise é sábio, e o verbo wise up tem uma conotação de crescer em sabedoria, subir um degrau na escadinha da evolução do espírito.
E ela diz no fim da música o que parece ser a chave: "It's not going to stop, so just give up". Não vai parar, então simplesmente desista". (conheci a música no filme maravilhoso Magnolia, faz anos, vale muito a pena - aqui é o trecho do filme em que todos os personagens cantam a música)
Parece que a novela foi me forçando a largar de mão a expectativa... como se eu fosse desistindo.
Depois do primeiro baque, parei de olhar os sítios à venda. Depois do segundo baque, parei de pensar em como eu queria a futura casa. Depois do terceiro baque, parei de fazer contagens regressivas mentais do tempo que restava aqui. Depois do quarto baque, parece que... não sinto mais nada. Não sei explicar a sensação, nem saber se ela é inteiramente positiva. Parece que de alguma forma a expectativa morreu, mas reconheço dentro de mim a mesma vontade de morar no interior que antes, só que uma vontade mais lúcida, com mais aceitação do que existe hoje e do que pode vir a ser a vida pós-mudança, com suas perfeições e imperfeições. Essa situação de adversidade deixou muito claro pra mim o quanto ainda tenho dificuldades de lidar comigo mesma e isso me ajudou a parar de idealizar a possível ida para o interior como o solucionador de tudo - é claro que onde eu for, vou levar minhas virtudes e desafios pessoais junto, os desafios de dentro não vão se solucionar com a mudança fora. É como se não houvesse mais aquele sentimento de paixão dentro de mim, o sonhar acordada, a projeção de como seria a vida nesse outro lugar, e foi assim só por causa dos "nãos" que foram acontecendo. A letra da música me diz, nesse contexto: "A porrada não vai parar, até vc aprender a não criar expectativa."
É bem doido, pq a gente anda pelo tal caminho espiritual e aprende intelectualmente muitas coisas, mas o que realmente valida tudo isso e coloca os aprendizados à prova é a vivência. Se propor a uma mudança de cidade e de ambiente é algo que acontece porque a gente mudou muito por dentro e quer que essa mudança se reflita fora também - e ir morar num sítio no interior ia favorecer mais e mais mudanças dentro e fora, retroalimentando esse processo todo. É dificílimo pôr a teoria em prática e não sentir expectativa diante desse cenário. Claro que tem todo aquele papo de que a nossa realidade a gente cria por dentro apenas, que quando a gente tá em equilíbrio qualquer ambiente externo é vivenciável em paz, já ouvi e já pensei muito isso, já entrei naqueles questionamentos: será que o meu propósito é me conformar com a realidade que tá se apresentando hoje e eu tenho que aprender a ficar bem e me expressar plenamente por aqui mesmo? Será que não é lícito buscar um ambiente que me alimente mais o espírito e que vibre em maior afinidade com o que tô buscando pra mim? Será que esses "nãos" todos significam que o meu caminho não é pra ser numa cidade menor, ou simplesmente significam que não é a hora da mudança ainda, ou significam apenas que o universo aproveitou a mudança pra me dar um treinamentinho em viver o presente?
A gente pode até saber bem as perguntas pertinentes, mas não tem resposta fácil. O negócio é entregar... não a entreguinha nossa de todos os dias, que essa não serve numa situação de muita mudança ou desejo de mudança - precisa entregar total mesmo, entregar a nossa incapacidade de entrega, entregar a incerteza entre entregar ou se esforçar mais um pouco praquele plano dar certo, entregar a sensação triste de estar com as anteninhas de vinil da intuição muito incompetentes, entregar o medinho de estar forçando uma mudança que não é pra estar no meu plano de vida. E quando a gente entrega e abdica das potencialidades do futuro, o que resta é um nada que é bem parecido com um tudo - resta esse agora, imenso e vazio, pra ser preenchido da vida de verdade acontecendo aqui - minha respiração, a luz do fim do dia indo até mais tarde nessa primavera, os hibiscos do caminho, a minha existência na matéria e a minha existência nesse plano imaterial em que a minha consciência se manifesta, os seres em todos os lugares. Os olhos abrem pro agora quando a gente perde o futuro pelo cansaço. Acho que é o que acontece com quem sabe que vai morrer em breve (inclusive tenho um post a escrever sobre meu amor por cuidados paliativos!) O nada, hoje, me permitiu fazer o melhor desse dia, com todas as suas circunstâncias, aquelas que julgo boas e que julgo ruins. O bom e o ruim é só julgamento meu, no fim; as coisas apenas são o que são. É bom largar de mão o idealismo platônico que nos faz criticar tudo o que não encaixa na nossa ideia de perfeito e nos enche de decepções e de suspiros pelo que poderia ser. E é um desafio achar o equilíbrio entre esse estado de presença, que é pleno e pacífico independentemente das circunstâncias, e a vida prática, as escolhas objetivas que fazem parte do caminho e que são sim importantes pra nos direcionarem para o nosso propósito. Vou tentando :)
Tudo isso pra dizer: não sei onde a vida vai me levar nos próximos meses, geograficamente. Sei que mudança vai haver, no mínimo de moradia, até início do ano que vem, e vai ter no mínimo pátio e horta; e, se for pra ser, vai ter mudança de bem mais que isso. Se é pra ser, não tenho ideia. Se for pra ser, melhor que a mudança me pegue assim, vazia, sem expectativas sobre o que vai ser, pra que a futura realidade me preencha com o que houver de alegrias e aprendizado lá. Vou caminhando na incerteza e tentando fluir com meus passos ainda tão trôpegos, tentando não me machucar demais com os golpes que o meu ego tá levando: sei que esses pedaços que estão ficando pra trás são aqueles que precisam ser desbastados mesmo. Uma amiga querida chama isso de rala-ego, acho tão engraçada quanto precisa a expressão! Nosso eguinho precisa ir conhecendo o seu lugar, pra se colocar a serviço da nossa missão, em vez de achar que é o dono da banca e governar a nossa vida... como diz no Bhagavad Gita: "o ego é um péssimo senhor, mas é um ótimo servidor".
No fim, parece que o ano até agora foi exatamente o que precisava ter sido. A sensação de que eu poderia ter sofrido bem menos ao longo dele é exatamente a confirmação de que aprendi alguma coisa. E se aprendi, tá bom. Tá servindo ao propósito maior :)
Bjs,
Fê

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Sobre ver vida no outro

Oi queridos :)
Hoje me deu vontade de escrever só porque tava aqui rolando o feed do facebook, entre uma tarefinha de computador e outra, vi essa figurinha batida:
Na hora, sabe lá pq, meu coração se tomou de tanta emoção, eu que já ouvi muitos "namastês" na vida, que percebo o quando essa expressão se tornou meio dita sem sentir. É que namastê só faz sentido se sentir!
Porque a vida muda quando a gente vê Deus no outro.
Mesmo pra quem não usa a palavra "Deus".
Porque a vida muda quando a gente vê vida no outro: simples assim.
Qualquer pessoa que passa por nós: ali vai um conjunto de construção de individualidade igual a vc. Ali existem emoções e pensamentos e um corpo que anda pela rotina mais ou menos cansativa, mais ou menos automática, mais ou menos desejada por aquele ser; naquelas emoções e pensamentos vive a memória de uma história de vida, certamente com seus traumas, com suas boas lembranças; as marcas daquele rosto, aquele jeito de andar mostram as circunstâncias da vida atual e dos anos passados; os olhos dizem aquelas emoções e pensamentos, mais eloquentemente que as palavras pensadas para serem ditas. É só ter olhos de ver... é só sintonizar o olhar.
O meu queridão (sinto que ele vai aparecer com frequência nos posts daqui pra frente... kkkkk) Eckart Tolle fala que a gente costuma interagir com papéis, não com pessoas. Vou no mercado e entro na fila do caixa e espero a minha vez - pra mim, se estou vivendo no automático, a pessoa que está ali é simplesmente "o caixa": alguém que desempenha a função de me permitir sair daquela fila e ir embora o mais rápido possível do mercado. Se não passar as compras rápido, se parar pra fazer alguma outra coisa antes da minha vez, vou ficar impaciente. Se não me olhar pra dar bom dia, vou pensar que é mal educada e que aquele mercado deveria exigir educação e cortesia de seus atendentes. Se jogar minhas mercadorias pro outro lado da esteira sem cuidado, vou ficar silenciosamente indignada com o descaso.
Mas... se eu vejo ali uma pessoa, em vez de "o caixa", tudo muda. Olha bem para aqueles olhos: o que eles dizem? Preocupação? Cansaço? Atenção ausente? Será que aquele ser queria estar ali, ou simplesmente não tem opção e precisa pagar contas todo mês? Será que aquela pessoa é uma mãe com um filhinho doente na casa da vizinha? O que será que ela faz quando sai dali, quanto trabalho será que ela tem em casa? Quanto tempo será que ela leva pra chegar em casa do trabalho? Ela é uma pessoa que precisa ir ao banheiro, se alimentar, contatar seus familiares, descansar uns minutos ao longo da sua jornada de trabalho. É absolutamente natural que ela pare eventualmente entre um atendimento e outro. Ela é gente. Ela é nós em outro corpo, com outra história. Isso é empatia.
Empatia muda a vida. Empatia nos tira da posição de críticos, de demandadores de eficiência. Nos permite ver o outro com a mesma compreensão e indulgência com que vemos a nós mesmos. Infelizmente, parece que muitos graus de empatia a gente só cria quando passa pela situação que antes a gente só via de fora. Essa historinha aí do caixa de supermercado é a história do que eu sentia e pensava quando ia no mercado, antes e depois de eu começar a atender público no trabalho. Percebendo as demandas do público sobre nós, num ambiente de escassez de colegas e quantidade de trabalho muito acima da nossa capacidade, eu vi o quanto eu fazia aquelas mesmas demandas quando estava no papel "a cliente" e o quanto elas eram potencialmente injustas. Hoje eu faço o possível para ver as pessoas por trás dos papéis. Quanto mais corrida a vida, no jogo da sociedade, mais o mundo nos incentiva a só ver papéis e exigir perfeição na execução das funções; nos incentiva também a sermos apenas o nosso papel e nos cobrarmos a mesma perfeição. Os seres se perdem... até que a gente faça essa revolução no nosso olhar.
A Júlia, minha médica virtual preferida, fez esses dias um apelo pra gente não esperar que a empatia brote naturalmente só por termos vivido a mesma situação. Uma vez feita a revolução no olhar, uma vez tomada a consciência da necessidade de empatia, vamos ver de fato o mundo ao nosso redor, vamos perceber tudo o que acontece com as pessoas e que não queremos pra nós, vamos compreender os caminhos tantas vezes cruéis que os levam a alguns comportamentos que julgamos maus. Vamos encher nosso olhar de empatia e amor :)
Parece que todo caminho espiritual nos incentiva a ver de verdade o Ser no outro. O Namastê da tradição indiana; o "In lak'ech" dos maias (eu sou o outro você).
Sabe até o que eu me lembro agora?
Aquele filme Avatar, e a palavra que o povo azul de Pandora usava pra se cumprimentar,
que significava "eu vejo você".
Bonito isso, né?
Dar oi dizendo eu vejo você,
reconheço o que faz de você meu igual
e o q faz de você único no mundo,
percebo as suas lutas pessoais,
seus ideais e sonhos,
suas fragilidades,
olho pra vc e realmente o vejo,
e por isso lhe cumprimento com respeito, admiração, carinho.
Tem um videozinho bem lindo que fala de empatia de forma muito, muito didática, tanto pela explicação quanto pela animação bem feita, divertida e sensível. Pra quem não tiver tempo de dar o play aí embaixo (vale muito a pena!), fica um resuminho do que ele traz: 
Empatia gera conexão.
Pessoas com capacidade empática conseguem tomar perspectiva e têm a habilidade de reconhecer a pespectiva do outro como a verdade dele; não julgam e reconhecem emoções em outras pessoas. Ter empatia é sentir COM as pessoas.
É como uma pessoa que está num buraco escuro e grita pra cima, tô presa, tá escuro, tá demais pra mim, e você diz oi, vou descer, sei como é aqui embaixo e você não está sozinho. Empatia é uma escolha, e é uma escolha vulnerável, porque, para me conectar com você, tenho que me conectar com um lugar de mim mesma que conhece aquele sentimento.
Se eu compartilho algo muito, muito difícil, em vez de uma solução pronta às vezes é melhor dizer, "nem sei o que te falar, mas que bom que você me contou", porque raramente é uma resposta que vai fazer as coisas melhores e, sim, a conexão.
A vida é tão rara, como disse o Lenine numa das músicas mais lindas que existem. E isso que eu nem falei da empatia com toda forma de vida, porque esse post já tá, pra variar, comprido de doer...
Vamos nos ver uns aos outros, de verdade <3
Bjs com carinho
Fê

sábado, 17 de outubro de 2015

O preço da carga horária

Oi queridos!
Tenho visto notícias sobre a experimentação de mudança de carga horária na Suécia, para 30 horas semanais. Vcs viram?
Adorei isso vindo à tona como assunto de discussão.

Experiência própria: 6 horas de trabalho focado rendem MUITO, muitas vezes mais do que 8 horas e a noção de que, se vamos passar o dia todo no trabalho mesmo, então vamos aproveitar pra checar emails, pagar contas, essas coisas da vida pessoal, e vamos tomar cafés pra tocar o dia, levantar pra espairecer e trocar uma ideia com os colegas, as letras bailam na tela do PC depois do almoço, vai mais café, olha o celular...
Acho bem bizarro pensar o quão pouco sobra de tempo de vida quando se trabalha 8h, almoça 1h ou mais, desloca 1h pra ir e 1h pra voltar = 11h úteis do dia envolvido com o que pra muita gente é só o meio de ter viabilidade material na vida. É realmente dar a vida por dinheiro, e sem ter muito pra onde correr, pq é muito difícil achar na maior parte do mundo um emprego que dê opção a esse esquema de falta de vida.
Aí não é de se estranhar que as pessoas terceirizem o cuidado com sua alimentação, com suas casas, com sua saúde, que negligenciem a sustentabilidade do planeta, o exercício de cidadania... esses dias ouvi: "minha mãe, que é aposentada e tem tempo pra essas coisas, separa lixo... a gente, que vive correndo, não tem como atentar pra essas coisas" - que sistema tão bem pensado esse capitalismo selvagem na ilusão da alegria consumista! Faz as pessoas correrem por dinheiro, e na corrida por dinheiro ficam tão sem tempo que não se dão conta das coisas realmente importantes, nem conseguem parar pra pensar o que será que é que tá faltando que faz elas seguirem correndo atrás de coisas, e trabalhando mais e mais pra ter o dinheiro de consegui-las!
Claro que tem pessoas que conseguem sentir tédio nas horas "vagas" mesmo trabalhando 44 horas por semana, mas quando a gente se abre pra necessidade de cuidar de todas as esferas da nossa vida, simplesmente não sobra espaço para ociosidade não criativa. Tentar fazer parte do ciclo da natureza é um esforço ativo quanto mais na cidade a gente mora - reaproveitamento de água, de matéria orgânica, cultivos, tudo isso demanda tempo; participação cidadã, acompanhar projetos de lei e opinar, mandar emails para agentes políticos e se envolver em manifestações, ativismos de todo tipo; cuidado com a saúde, aprendizados sobre nutrição, buscar seu alimento orgânico, local e agroecológico, fazer a própria comida; ler e praticar yoga, meditação, ou a prática de espiritualidade da sua escolha, tudo isso demanda tempo, e é parte muito real das responsabilidades humanas! Tão esquecidos andamos dessas responsabilidades, que se vincula o trabalho, pagar contas e o leva-e-traz dos filhos às únicas responsabilidades de uma vida. E aí a gente vê por aí tantas crianças emocionais, com dificuldade de lidar com suas questões mal resolvidas, tomando remédio como se fosse bala, e dá-lhe tv pra não pensar; tantos absolutamente insensíveis ao dano que a nossa sociedade causa à Terra, tantos reclamadores do estado da política e da gestão pública sem que façam o que lhes cabe como cidadãos pra melhorar as coisas (ainda que pouco consigamos mudar, mesmo sendo muito ativos nessa área da cidadania... é o que nos cabe).
Com a vida dedicada a conseguir dinheiro, não sobra tempo pras essas responsabilidades muito reais, quanto mais para a arte, para a beleza, para a contemplação - pior que essas coisas tb, deram um jeito de gourmetizar e fazer virarem eventos de vaidade, de "ver e ser visto" em vez de serem instrumentos de internalização verdadeira, de conexão real com o todo.
Esse assunto do tempo gasto no trabalho puxa muitos outros e fácil a gente vê o quanto ele se relaciona com a sustentação da matrix que mantém as pessoas dormentes.

Por isso minha alegria de ver a Suécia puxando o bonde. É preciso parar com essa mentalidade de que quem trabalha 6h (no Brasil, possibilidade principalmente de algumas classes profissionais e alguns órgãos públicos apenas) é vagabundo, e pra mudar essa mentalidade é importante que se mostre ao mundo que isso é viável para empresas, que a produtividade compensa, que a sociedade toda se beneficia pela saúde mental que permite aos trabalhadores. Quanto à necessidade de se trabalhar para viver, é uma reflexão bem mais profunda... mas, considerando que alguma demanda por moeda de troca existirá na vida de todos, e que trabalho com esse fim existirá também, pelo menos se pode afirmar: a vida não pode ser gasta inteira nessa troca de tempo por dinheiro, nós somos MUITO mais que isso!
Termino confirmando o título dessa reportagem muito legal sobre o assunto: ninguém deveria se orgulhar de trabalhar muito. (trecho: "Para compensar o corte de horas, foi pedido aos funcionários da Filumundus que não entrassem nas redes sociais durante o expediente e que evitassem outras distrações. As reuniões também foram reduzidas ao mínimo. Feldt garante que não só a produtividade permaneceu igual, como os pequenos conflitos do dia a dia diminuíram e as pessoas estão mais motivadas. "Na verdade elas estão mais felizes e descansadas.")