terça-feira, 24 de maio de 2016

A mágica do presente

Oi queridos :)
Estou aqui, depois de uma semana de volta em casa, sentando pra escrever sobre a oportunidade incrível de autoconhecimento que tive nesse mês (update: levei algumas semanas para escrever esse post hehe...).
Passei 21 dias de abril num retiro, sem contato nenhum com notícias, internet, telefone, família, nada. Foi bem interessante a sensação de náufrago retornando pra civilização quando saí, tinha acontecido até votação de impeachment na Câmara, várias mudanças no trabalho, aquele clima de apocalipse na vida política do Brasil - e eu... pensando em quanta realidade eu vivi naqueles dias isolada! Nem que quisesse eu conseguiria me conectar com a loucura imperante na tal conjuntura de crise. Não mesmo. Não tem nada mais real que a nossa essência, e nada que aconteça no teatro do sistema é capaz de afetar o que realmente existe, o que somos. O resto é impermanência de qualquer forma...
Não havia cronograma de atividades para estes 21 dias, apenas uma tarefa: estar presente. Tão simples, e tão raro de vivenciarmos na nossa rotina regular. Já de chegada, todos tinham uma aula sobre essa voz na nossa cabeça (que nós identificamos como "nós mesmos"): esse é o ego, a nossa criança mimada particular. Porque nós... nós somos bem mais que a voz que pensa, a nossa identidade verdadeira está bem mais no fundo de nós, e já foi chamada de infinitos nomes - essência divina, alma, espírito, Eu maior. Só que a matéria é muito boa em nos fazer esquecer desse eu profundo e perfeito que somos e em nos fazer acreditar que somos o corpo e a mente que pensa. O ego gosta de mandar em nós e ele consegue mandar, porque faz a gente pensar que ele é a gente. Então ele diz: quero aquilo lá! E nós corremos para conseguir aquilo. No momento que conseguimos, logo ele se aborrece e acha outra coisa pra querer - agora eu quero aquele outro! E lá vamos nós correndo, achando sempre que nossa felicidade vai estar no próximo alvo. O problema é que nunca vai estar. A felicidade é um estado de ser, não está em nenhuma circunstância externa. E esse estado de ser só é conseguido vivendo o que realmente existe: o agora.
O ego vive remoendo passado, seja em alegria saudosista ou ressentimentos, e projetando futuro, seja pra sentir prazer com a perspectiva de felicidade mais adiante ou pra morrer de preocupação e ansiedade e tentativa de controle do que ainda não chegou. Quando nos identificamos com o ego obcecado no passado e no futuro, mal prestamos atenção na vida preciosa que está dentro e fora de nós nesse momento único da vida: esse segundo que está passando. A nossa mente em funcionamento normal, prática e realizadora, não é capaz de captar a magia da vida. Ela está muito preocupada em fazer, não consegue apenas Ser com tudo o mais que É no universo, e estabelecer uma conexão com o Todo dessa forma. A mente pode até ver uma flor, mas a beleza real dela passa batido; ela é percebida como um fato, até a noção de que ela é bonita, se vem da mente, é uma percepção plana, sem profundidade. Só estando conscientes do momento presente é que conseguimos efetivamente viver a beleza plena e a manifestação inteligente que envolve aquele serzinho.
Só se consegue entrar nesse estado de presença praticando a arte do destronamento do ego. A melhor metáfora para entender o funcionamento dele é a da criança mimada, que definitivamente precisa sair da nossa garupa, onde ela acha que nos governa, para ir para o cercadinho a uma distância segura de nós - e lá, a gente vai conseguir percebê-lo como uma entidade separada do nosso Eu real, e quando ele choraminga por algo, podemos conversar com ele com amor, mas dando limites, que toda criança precisa. Diante dos pensamentos, a arte é observá-los - ao fazer isso, reconhecemos a entidade que pensa, e entramos no papel do observador. O observador olha de longe para os pensamentos e não se identifica com eles, e o que acontece quando a gente faz isso é mágica. O pensamento perde força. A identificação com o ego é essencial para que os pensamentos nos dominem.
Aquela cara de ego!
Exemplo: "aiai que saco que é segunda-feira, uma semana toda pela frente, não aguento mais" vira "hm, meu ego está incomodado que é segunda-feira. Mas por que isso, eguinho querido, se segunda-feira é só uma abstração da sociedade pra mais um ciclo de luz do sol passando a Terra? Se é o trabalho que tá ruim, vamos pensar o que podemos fazer pra mudar, mas até lá reconheça que o que existe no nosso presente é esse trabalho, e choramingar não vai mudar a realidade. Aceita o trabalho como ele é, que até é capaz de você achar que não é tão mau assim".
Existem muitas estratégias para lidar com o ego: ao ver que estamos começando a nos incomodar com as coisas, por menores que sejam essas incomodações, fazer um exercício de trocar as reclamações por gratidão. Enumerar mentalmente ou por escrito tudo o que há de bom na nossa vida nos joga automaticamente pra uma vibração super elevada, que é essencial pra entrar no presente. Dá pra isar qualquer coisa que nunca se parou pra pensar, porque se achou que sempre esteve ali e que sempre vai estar - até coisas esdrúxulas, e assim se aproveita pra dar umas risadas consigo mesmo, porque alegria também nos conecta com o presente: "que bommmm que eu tenho pelos dentro do nariz pros mosquitinhos não irem parar reto no meu pulmão!!"
Abandone o hábito da social de elevador que, se parar pra reparar, é sempre reclamatória. Se for pra dizer "que frio", "que calor", "e essa chuva", "que bagunça a cidade fica antes do Natal né", não diga. O planeta também tem um ego, que fica bem feliz com esse tipo de interação reclamona; todas as pessoas ficam confortáveis pois trocaram palavras, a social foi feita. O ego planetário é o sistema, a matrix, essa que nos empurra pras reclamações da mesma forma que nos empurra pras necessidades artificiais. Não compactue! Sorria, deseje apenas um bom dia, pergunte se está tudo bem. Criar responsabilidade pelas nossas palavras é muito necessário, tudo o que sair da nossa boca (e também o que pensamos) tem consequências vibratórias, é o que estamos dando às pessoas e ao planeta. Felicidade vibra rápido, leve e em alta frequência; reclamação vibra baixo, denso e em baixa frequência. Precisamos doar alegria e amor se quisermos receber alegria e amor, é fato da realidade física.
Outra estratégia é reparar na respiração. Quando estamos aflitos, na maior identificação com o ego num momento sofredor, nosso peito fica oprimido e não respiramos direito. Reparar na respiração e corrigi-la, perceber o corpo e suas tensões nos conecta com o presente e nos tira da emoção pesada. É muito bom ficar o tempo que se conseguir apenas acompanhando o fluxo da respiração, vivenciando a realidade do corpo que funciona tão majestosamente - e se aparecer alguma onda mental pra interromper o momento de observação, siga à distância, olhe de longe e classifique o pensamento. A essência, o Eu superior, manifestação da mesma inteligência que dá vida à florzinha de que falei lá em cima, esse não sofre, não julga, não planeja, não se apega - ele apenas É, manifestando a perfeição da existência. Ele percebe sem reagir de forma impensada. Ele olha para o pensamento que surgir e simplesmente o classifica: "esse é um pensamento revivendo o passado". "Essa é uma tentativa de controle". "Esse é um julgamento bobo". E se estiver difícil de se dissociar da emoção que veio com o pensamento, manda ver na lista de gratidões infinitas. Ajuda muito a subir a vibração! Mas só tomar consciência das emoções densas, com distanciamento, já tira a força daquele sofrimento.
Outras orientações que recebemos nesse primeiro dia de retiro: quando precisar, peça. Nenhum ser de outros planos pode interferir positivamente na nossa vida se não pedirmos, se não dermos autorização, então se tem qualquer força maior em que você acredita, não fique achando que ela conhece sua realidade e pode sair interferindo sempre que achar que as coisas não estão tão bem assim pro seu lado. Temos a liberdade de irmos pelos caminhos do sofrimento se quisermos, sem interferência... então, se quiser ajuda, peça, dê autorização para que eles atuem.
Mais uma: cultivar o silêncio. Passei esses 21 dias no maior silêncio da minha vida, externo e interno. Isso cria com muito mais facilidade espaços de vivência do presente. A introspecção nos conecta com a nossa essência, nos faz realmente vivenciar o que somos de fato. É muito, muito interessante assistir o ego dando chilique e perceber que é só isso, o ego incomodado, e não o nosso Eu real incomodado. Reconhecer que não somos as sensações do nosso corpo, nem as nossas emoções nem os nossos desejos e pensamentos. Dá um outro nível de resiliência, de noção de força interior.
Como vocês podem ver, nada de muito novo nessas estratégias - silêncio, prece, vigiar os pensamentos, não julgar, ser grato... quem já não leu muitas vezes tudo isso? A questão toda é vivenciar. E lá foi um espaço de prática intensiva de tudo isso. Só a prática leva à vivência, e só a vivência que é transformadora. A gente passa tendo contato com as coisas no nível da mente - lemos no livrinho, ouvimos no vídeo, acatamos racionalmente, e não praticamos. Aí não sentimos o quanto aquela prática simples pode mudar a vida. O negócio realmente é trocar a intelectualização das informações pela vivência.
Tem um livro que nos é sugerido lá que se chama O Poder do Agora, do Eckart Tolle. Foi escrito logo depois da virada no milênio e é super best seller, inclusive se acha fácil pdf na net. Ele explica com detalhes como entrar no agora e sair do sofrimento, é FABULOSO. É a base dessas instruções que recebemos no primeiro dia do retiro. Eu sugiro esse e as Sete Leis Espirituais do Sucesso logo depois, do Deepak Chopra. Eu fiz um resumo dos dois livros, estão nos links aí nos nominhos dos livros.
Quando se reconhece a impermanência do que está fora, a gente percebe que o principal que podemos fazer pelo planeta é sermos nós muito felizes na essência, conscientes e pacíficos, e emanar essa vibração às pessoas na nossa volta, ajudando assim no despertar delas também. Essa felicidade e essa paz, modificadoras da realidade, estão na frequência do presente. É simples, e funciona.
Eu queria muito compartilhar essa experiência aqui pois é o que realmente é transformador. Quando se vivencia essa vibração de amor e paz superiores, coisas mágicas acontecem, a gente realmente entra num estado de graça, de êxtase com o universo e sua lindeza, de cocriação  de realidade e sincronicidades sem fim, tudo conspira a nosso favor e a gente nem se sente mais tão presa das nossas necessidades básicas e até fisiológicas. Tem pessoas que usam esse estado pra não precisar comer tudo o que comemos normalmente, tem pessoas que passam a dormir menos, pessoas que conseguem controlar a dor e se curarem de problemas físicos, pessoas que passam a ter tanta certeza da abundância do universo que não mais passam necessidade financeira. Assim é!
Esse texto é muito, muito lindo e explica bem esse nível de consciência superior que treinamos para alcançar no retiro. Para quem já ouviu falar nele como Processo de 21 dias e me perguntou como é, escrevi aqui com maiores detalhes sobre a parte prática da cura física, emocional e mental que se processa. Esse formato foi divulgado no início dos anos 90 por uma australiana chamada Jasmuheen, em um livro chamado Viver de Luz. A questão alimentar do retiro causa uma certa estranheza nas pessoas, e eu busquei nesse post não focar nisso, pois a forma é só um meio para exercitar essas simplicidades transformadoras da vida que eu comentei aí em cima. A gente ainda tem esse hábito de se apegar mais na forma que no conteúdo, né, mas estamos na caminhada hehe! Quem sentir interesse por mais detalhe ainda sobre a parte prática por estar pensando em fazer, quiser o contato do lugar onde fiz, quiser trocar ideia a respeito, estou super à disposição! Só mandar um email ou mandar um oi no facebook.
Com desejos de cada vez mais despertar no nosso planeta lindo, cada vez mais responsabilidade pelas escolhas, cada vez mais paz e amor reais, eu abraço bem apertado cada um!
Bjs

domingo, 20 de março de 2016

O que um assalto tem de bom?

Oi queridos!
Só pra não deixar a pergunta na expectativa de resposta, claro que um assalto não tem nada de bom. Mas pode ter de útil. E útil, dependendo do que a gente definiu com objetivo de vida, pode ser bem bom, no fim das contas!
Esse fim de semana estou tendo aula da minha pós-gradação em saúde e espiritualidade e o assunto esse mês é a relação da espiritualidade com a psique na visão junguiana. Gosto muito do Jung e do entendimento que ele tem do Universo como sábio e movido por finalidade - foi ele quem cunhou o termo sincronicidade, que eu uso muito. A sincronicidade é uma aparente coincidência entre fatos sem relação causal, mas que se atraíram mutuamente devido a um propósito. Então se busca entender nessa forma de terapia o que estamos atraindo de experiências para a nossa vida, e o que essas experiências estão querendo nos mostrar do comportamento do nosso ego e de necessidade de mudança, em direção a uma vida mais plena, mais em acordo com a consciência superior que existe dentro de nós (que o Jung chama de "self").
Aí pensei, durante a aula, no quanto a vivência do assalto que sofri esses tempos foi um exemplo de sincronicidade: eu levei muito tempo pra entrar na vida de pessoa com smart phone, e só entrei porque herdei um telefone usado da minha mãe, há quase dois anos. E logo depois iniciou todo o movimento de consciência que gerou esse blog e muitas mudanças na minha vida, e o telefone se tornou um meio de usar cada momento do meu tempo pra não perder toda a gama de informações emancipadoras que cada vez mais chegavam até mim. Sem eu me dar conta, estava entrando naquela cilada da ansiedade por medo de perder o que tá acontecendo, tava sempre com a lista cheia de artigos para ler, sobre assuntos que me interessavam, e sempre justificando, para mim mesma, que aquilo era bem importante pra minha vida. E ao mesmo tempo eu estava chegando num ponto da mudança que estava requerendo uma aquietação, uma atenção a práticas meditativas que eu não estava conseguindo encaixar na minha vida de muitos cursos, muitas oficinas, leituras, posts, trocas de informação. Aí, numa tarde, depois de mais de ano e meio de intensa atividade, o celular que a mãe me deu, que há algum tempo estava ficando lento e ruim de usar, teve morte súbita, e eu saí do trabalho direto para a loja para comprar um novo, e de noite já tava conectada & aliviada de não ter ficado mais do que algumas horas sem contato com as minhas fontes de informação transformadora. Nem lembrava que há dois anos eu achava bem improvável que alguma vez na vida eu fosse gastar mil reais num telefone - nem questionei a compra, que eu apenas senti como uma necessidade básica da minha vida como ela vinha acontecendo.
Nesses últimos dois anos andei muito em Porto Alegre, mas muito mesmo, transporte público direto, de dia e de noite, e sempre me senti muito protegida pela minha "bolha de luz", vibrando positivo e conscientemente emanando confiança e amor e sabendo que não iam me acontecer coisas ruins por estar exposta - já que eu de qualquer forma ia fazer meus cursos e oficinas e ia usar o transporte público, vibrar positivo era o melhor que eu podia fazer pra ficar segura, certo?
Até que, pouquíssimo tempo depois de eu trocar de celular, e num dia em que eu estava triste com algumas coisas e em que nenhuma vez eu foquei em me proteger energeticamente para estar na rua, me vem um cara e me assalta na Redenção, num sábado às 8 da manhã, indo para a feira orgânica. Pela média dos relatos das pessoas que vivem assaltos, foi totalmente sem maiores danos - celular, dinheiro, aquelas ameaças de sempre, cada um pro seu lado.
A gestão interior da experiência do assalto não é o foco do post, mas vale um parágrafo. Depois que o guri que me assaltou foi embora, fui em direção ao centro de Porto Alegre pra vir pra casa e no caminho fiquei conversando com ele mentalmente pra me acalmar, dizendo que eu sabia que certamente a vida dele não era fácil pra colocá-lo no ponto de revolta ou desespero de alguém que rouba, e que eu sabia que ninguém quer ter que viver assim, e que eu entendia que aquilo era fruto de uma sociedade de aparência e excludente, que faz todo mundo acreditar que as posses é que fazem alguém ser alguma coisa na vida... e que eu torcia pra que um dia ele conseguisse superar a violência que a sociedade o impôs, pra ele conseguir não mais reagir com violência de volta, e que eu tinha certeza de que um dia a gente teria oportunidade de desfazer aquele contato pesado, de medo do meu lado e agressão do dele, e transmutar em algo positivo, e que começasse desde já essa transmutação. Fiquei um bommm tempo nesse exercício pra superar a fragilidade que eu fiquei sentindo, a sensação de vulnerabilidade, mas em nenhum momento eu senti revolta ou nada de ruim em relação a ele. Sou bem convicta da minha forma de ver a violência como produto natural da nossa sociedade doente, é o que todos nós cocriamos mais ou menos intensamente ao fazer parte dela.
E, voltando pra sincronicidade: depois de andar quase 2 anos com um caco velho de celular e nada me acontecer, troco por um celular novinho e bonzão e em duas semanas me levam ele embora. O que aquilo queria me ensinar?
Foi bem fácil de perceber, porque veio a maior crise de abstinência nos dois dias que fiquei sem celular. Dessa vez eu não saí correndo pra compra um celular novo pois eu vi que precisava refletir no que tinha acontecido, resolvi me observar antes de qualquer coisa. Foi uma lição óbvia de que havia um apego que eu estava tentando justificar racionalmente pela minha "louvável" vontade de aprendizado. Ao me dar conta disso, já resolvi simplificar minha vida online - peguei um celular bem mais simples que minha sogrinha tinha sobrando (gratidão!), troquei meu plano do celular para um bem básico também, tirei o recebimento de notificações no facebook das atualizações de grupos e páginas do meu interesse, e resolvi que tudo bem se eu perder as atualizações do mundo da sustentabilidade, vegetarianismo, nova era, terapias. Tudo bem. Desapega, Fê: ninguém pode saber de tudo e o que for bem importante pro meu caminho, sei que o Universo vai dar um jeito de me mostrar. Controle é ilusão. Eu já acumulei mais informação do que fui capaz de metabolizar nesse período, a minha necessidade de desacelerar e internalizar as experiências e aprendizados adquiridos era tão óbvia, só eu não conseguia ver, aí o Universo providenciou um assaltinho pra eu acordar :)
Desde então estou passando 10% do tempo de antes na internet, e isso me devolveu o tempo de descanso do qual eu havia abdicado e eu pude perceber o momento de introspecção que estava iniciando - outra sincronicidade: tudo isso foi um mês antes de um retiro longo que farei no fim de março, que será um evento bem extraordinário na minha vida. Fui desacelerada no momento certo, a tempo de preparar o coração e a mente para a vivência absolutamente interior que virá nesse retiro.
Eu, que sou movida por propósito, afino plenamente com a ideia de um universo que interage comigo por forças finalísticas - o que me acontece, não acontece necessariamente por merecimento, mas sempre por finalidade, por necessidade de aprendizado. A minha necessidade que atrai os acontecimentos que servirão de algum propósito na minha caminhada, a minha consciência superior constela esses acontecimentos pois ela me direciona inevitavelmente ao crescimento - se eu não percebo os alertas mais sutis, vem um mais óbvio.
E eu ando, sim, meio sobressaltada na rua quando alguém me aborda, coisa que eu nunca senti - sei que é reflexo do assalto e que com o tempo vai passar.. mas, fora esse efeito colateral, posso dizer que foi exatamente a experiência que eu precisava naquele momento.
E vou então ao retiro, com o coração bem mais em paz, a mente bem mais quieta, com lindos prospectos para esse meu novo ano que inicia - porque hoje é meu aniversário :-D
Bjs, com carinho da Fê.

terça-feira, 8 de março de 2016

Dia de pensar sobre o feminino

Bom dia, queridos!
Esse dia 8 de março sempre me deixa reflexiva, com as mensagens de parabéns e flores e vocês são incríveis por se desdobrarem em mil e fazerem tudo isso com graciosidade, uau.
Não, não - por favor, nosso mundo precisa chegar na raiz do problema. Existe um problema muito sério com o princípio feminino no nosso mundo. Que esse seja um dia de refletir sobre isso. Deixo o Prem Baba fazê-lo, porque ele o faz maravilhosamente. Ele sabe tão profundamente o quanto esse problema é raiz de sofrimento no mundo que fala sobre isso repetidamente. Deixo alguns trechos e links, para quem queira aprofundar.
E deixo também meu desejo de que nos curemos e manifestemos cada vez melhor nossas energias feminina e masculina pra criar um mundo de amor e troca verdadeira e honrada!
Bjs

Flor do dia 07.12.2015
“As distorções dos princípios vitais feminino e masculino, que se manifestam como agressividade e submissão, nascem da necessidade de retirar energia do outro. Energia significa amor – essa é a energia que alimenta o universo. O desamor é o que gera as distorções. Assim, a entidade humana, movida pelo desamor, passa a vida tentando conquistar o amor, mas tudo o que ela consegue é gerar mais desamor. O submisso gera mais ódio no agressivo porque ativa nele a violência do masculino distorcido; e o agressivo ativa ainda mais a submissão do feminino distorcido. Esse é o núcleo da guerra neste planeta.” Sri Prem Baba
"Você quer saber mesmo como está uma nação, observe a relação dela com a mãe. Vamos traduzir mãe como o feminino. Como você se relaciona com o sagrado feminino? Você homem, você mulher. O sagrado feminino que se manifesta de muitas maneiras, como a sua mãe que te deu a vida, como as mulheres em geral, com seu próprio corpo físico que é também uma manifestação da mãe divina, a própria natureza e todas as suas manifestações e tantas outras formas, cito apenas os mais óbvios.
Você pode honrar o sagrado feminino? Você pode sinceramente reverenciar o sagrado feminino? Você pode considerar o feminino sagrado?
O descaso com o seu corpo físico é o mesmo descaso com a natureza porque seu corpo é uma representação dela. Os rios são as veias e assim por diante. O oceano é o seu coração. O que você tem colocado pra dentro do seu corpo? O que você tem colocado nos rios do seu corpo? Plástico, metal, químicas diversas. É interessante que possamos refletir sobre este processo destrutivo que embora muitas vezes possamos considerá-lo como ilusório, está nos destruindo. É ilusório, mas você continua identificado com ele e você reage a partir dele. Você está identificado com o ódio e age a partir do ódio. Me parece que, o que realmente é nocivo, é a sua inconsciência em relação a esta identificação. O que é nocivo mesmo é a ignorância que faz com que você não admita a responsabilidade por esta destrutividade." (esse texto inteiro é maravilhoso, transcrição de um satsang em 2009)
"Às vezes, você realmente manifesta o sagrado feminino e consegue aceitar o fluir (este é o princípio feminino original). Quando esse princípio é distorcido, ele se transforma em submissão e vitimismo. Essa distorção acontece na infância, na sua relação com a mãe. No momento não estamos lidando com o princípio masculino, que é a força de ação que, quando contaminada pelo ódio, transforma-se em violência. Mas, esse não é o assunto do momento. Nesse momento, estamos tratando da afinação com o feminino. (...)
Como esse feminino distorcido age em você? Como você se faz de vítima e se põe a reclamar da vida? Como você tenta fazer o outro sentir-se culpado pela sua infelicidade? Como você tenta forçar o outro a te amar, fazendo-se de impotente e coitado? Como você tenta escravizar o outro com a sua máscara de impotente e carente? Como você joga culpa na porta do outro, pela sua incapacidade de amar? Isso são distorções do feminino dentro de você, e você já tem condições de avaliar. Veja como você se coloca na posição de dependente ou codependente do outro; se você precisa que o outro seja infeliz para sentir-se forte. E fazendo isso você alimenta o vício no sofrimento do outro. Você alimenta esse vício, porque isso te dá um senso de identidade. Quem é você sem esse vício ou essa imperfeição do outro?
Veja as diversas formas que a distorção do feminino age através de você. Essa avaliação tem muito valor. Isso pode realmente fazer diferença na sua vida." (satsang em 2013)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Abraçando minha humanidade

Oi :)
Hoje eu acordei amando muito minha humanidade. E achei que era um bom momento de escrever aqui no blog sobre isso!
Fiquei um bom tempo sem postar, aí hoje, ao acordar tão apaziguada comigo mesma, com minhas dificuldades, minhas dúvidas, com minhas buscas e mudanças, sentindo tanta autoaceitação, me dei conta de que provavelmente foi a primeira vez nessa jornada de tomada de consciência em que isso aconteceu naturalmente e não como um pensamento forçado, como algo vindo do racional tentando ser introjetado no emocional. Que alegria sentir assim sem esforço!
Agora que PASSOU, acho até difícil revisitar o tanto de conflito que senti na época do meu último post. Uma crise completa de validação das mudanças de hábito a que eu estava me propondo.
Eu fiquei umas duas semanas naquele estado de observação dos meus sentimentos, tomando consciência do que estava acontecendo, tentando definir exatamente o que eu tava sentindo, e sem saber o que fazer pra mudar aqueles sentimentos densos. Foi difícil reconhecer e aceitar o motivo: após tantas mudanças práticas derivadas de ampliação de consciência, eu me dei conta de que não estava nada feliz com meu dia-a-dia. 
Sentimento de vida pesada e difícil de se viver, de insatisfação constante comigo e com o mundo, de dissociação completa das pessoas, mesmo as muito amadas - das quais eu recebia com frequência incompreensão e crítica, ainda que em tentativa amigável e amorosa de me trazer de volta pra normalidade. Eu acabei me vendo tão agoniada por ter que dizer não para as comidas que me ofereciam, ter que me explicar, aguentar as reações das pessoas, que fui perdendo a vontade de estar presente nas confraternizações, até as festinhas rápidas no trabalho viraram um suplício, eu só tinha vontade que não lembrassem de me chamar pra ir. Mas tb me sentia mal por não ir, porque é claro que eu gosto de confraternizar, ora bolas!
E uma das maiores solidões era me sentir diferente e não fazendo parte mesmo no meio das pessoas que eu admiro, que buscam ideais próximos aos meus. Vem forte a lembrança de um almoço na ONG de permacultura que eu amo muito, em que todos comeram lasanha de brócolis felizes e eu levei lentilha germinada. E tava frio pra caramba. Eu comendo a lentilha e olhando o vapor subindo da lasanha, pensando que uma comida quente iria muito bem, mas reforçando a lembrança de que a lentilha era melhor pra minha saúde, e sentindo o frio emocional de me achar diferente de todos quando a minha vontade real bem escondida era ser totalmente parte, mesmo ciente do glúten, e do cozimento, e do queijo. Doeu sentir essa dissociação justo naquele meio, que era cheio de pessoas amorosas e conscientes buscando uma relação melhor com o nosso meio, bem o que busco pra mim tb!
E não só, uma parte muito humana de mim também queria o direito de numa confraternização comer alguma coisa gostosa, mas, claro, ou eu levava a minha própria comida (e tinha que gastar tempo antes preparando, embalando, levando, e ressaltava a diferença entre mim e os outros) ou não levava e não comia o que tinha, passava a água enquanto todos se deliciavam, e além do bombardeio de perguntas e comentários sobre o meu não comer, ficava privada de a confraternização ser um momento divertido e leve e de comer algo especial (parece aqueles lugares cheios de doces lindos em que a única opção vegana é uma salada de fruta desmanchando de velha, ou restaurante que a única opção vegetariana é só feijão arroz e alface, que dá um sentimento de punição por vc seguir uma conduta alimentar diferente). Quanto recalque eu tava engolindo, né?
E vi que, enquanto ainda inconsciente de tudo isso, eu me protegia desses revezes e embates me reforçando cada vez mais nos meus ideais, no mundo que eu queria ajudar a construir. Comecei a ficar cada vez mais cuidadosa com a minha geração de lixo, com os meus produtos de limpeza e higiene, com a origem da minha comida, pra que nada tivesse tóxicos, pra evitar ao máximo criar dano pro planeta e pra saúde. Fui lendo e estudando cada vez mais sobre esses assuntos. Isso foi me dando cada vez mais trabalho, eu fui me impondo uma rotina espartana pelo bem comum e pela minha saúde, que me ocupava muiiiiito tempo. Praticamente todo o meu tempo. Vivia com a lista de tarefas cheia e com a sensação de sempre ter muito pra fazer, muito pra aprender e mudar nos meus hábitos para ter a coerência que eu tava buscando... não me dava tempo pra descanso nem pra exercitar a espiritualidade nem pra amar, falar de amor, ler poesia, essas coisas que alimentam a alma de beleza.
Então, além de não confraternizar mais, não comer fora, não encontrar pessoas, eu passava todo o meu tempo livre estudando, fazendo meus produtos, indo atrás das matérias primas e das feiras orgânicas (nenhuma perto da minha casa), preparando meus alimentos, organizando meus potinhos quando tinha que comer fora de casa, devolvendo potes e sacos aos locais onde eles seriam utilizados de novo, e vendo formas de eu também reutilizar, substituindo meus plásticos por vidros, uma trabalheira sem fim. Fiquei tão cricri que se eu esquecia minha caneca, me recusava a tomar caldo de cana na feira, que eu adoro, só pra não gerar mais um copo plástico descartado. Resultado: mais recalque. Tão "correta" nos meus hábitos, às custas do meu descanso, do meu lazer, da graça dos momentos de confraternização, vivendo o "sacrifício que valia a pena", eu não conseguia não esperar dos outros que acordassem e se esforçassem também, e fui perdendo total a identidade com a humanidade. Eu lá me debatendo com a vontade de tomar o caldo de cana e com a culpa de gerar um copo descartado, olho pro lado e tem uma baita lixeira com centenas de copos de pessoas que tomaram o caldo de cana bem felizes. Nesses momentos eu percebia o quanto aquele sacrifício todo que eu fazia era inútil se uma quantidade maior de pessoas não acordasse também. Em vez de eu aceitar o passo de cada um, isso foi me deixando num estado horrível de julgamento. Só via o ruim do mundo, o quanto o nosso hábito de vida estava imerso em engano e auto-engano, interesses escusos e má-fé do poder econômico, intoxicação de todos os tipos, acomodação das pessoas diante das evidências, com uma agudeza que parece que só emerge quando nos dissociamos por completo daqueles processos; fui perdendo a empatia e a conexão com as pessoas, me peguei pensando: claro que sofrem, fazem tudo errado e quando ouvem falar de algo diferente, que pode gerar mais saúde e um karma mais positivo pra vida, não dão bola, porque é difícil, porque é menos cômodo...
Fui perdendo a capacidade de ver beleza e sentir aquele amor universal transbordante que eu amo sentir, não tava mais sentindo a manifestação divina perfeita na vida. Sério. Durante a crise, tive momentos de pensar, não acredito que só mudar alguns hábitos possa ter interferido tanto na minha sensação de pertencimento, afinal é só comida e lixo, puxa vida, não é o centro do universo! Ouvindo de fora pode parecer a maior piração, mas é impressionante vivenciar o que pode acontecer quando a gente se propõe a romper com o comportamento padrão e segue vivendo em sociedade.
Quando eu consegui enxergar mais claro tudo isso, vi que tinha que mudar. Entendi que, se for um fardo pesado demais, não tá na hora, ou não é o caminho. Caminhos do coração sorriem para nós, mesmo que sejam de disciplina.
Diante da crise toda e da sensação de infelicidade, resolvi testar voltar a comer ovolactovegetariano nas confraternizações e não me estressar tanto com a geração de lixo e os produtos que uso, comprar produtos sustentáveis em vez de fazer todos. Essa decisão foi tb bem sofrida, eu senti que estava traindo o que acreditava, que estava me acomodando, me conformando ao errado, enfim... fiquei exercitando o chicotinho nas minhas costas hehe, me cobrando por tentar deixar de lado o ideal da perfeição. Mesmo com essa autocobrança e sensação de culpa, eu aceitei flexibilizar, pq tava muito infeliz na minha bolha de coerência.
E deu certo :) Hoje eu vejo bem claro que eu precisava sair daquele estado de coerência militar pra conseguir escapar da ótica de julgamento e deixar o amor entrar, pra voltar a ver beleza e a me identificar com as pessoas. Eu estava excessivamente focada na matéria, em como me portar exteriormente, a ponto de não me sobrar tempo pra cultivar as coisas que alimentam o espírito. Imagine se tudo o que eu conseguisse ver das pessoas lindas que estão no meu caminho fosse o lixo gerado, o consumo de laticínio/açúcar/comida cozida? Como eu ia me perceber recebendo tantas dádivas se meu olho seguisse focando só a crítica à nossa sociedade, quando ainda vivemos uma transição na forma de nos relacionar com a Terra e com o alimento?
Precisei frear minha sede de mudança exterior para sentir de novo que sim, essa é a minha humanidade, é meu também o karma coletivo que acumulamos nessa sociedade, não faz o menor sentido eu me sentir isenta ou alheia à nossa coletividade por ter feito há algum tempo algumas mudanças de hábitos, por me esforçar pra fazer diferente. Eu só consegui enxergar tudo isso de novo depois que me permiti participar dos momentos de lazer com as pessoas que amo, rir com elas, comer com elas o que tivesse de opção ovolacto na festinha (pq ovolacto sempre tem!), e isso me desligou a chavinha do julgamento como eu não estava conseguindo fazer enquanto eu era a única só tomando água na mesa, esforçada por um mundo melhor, aguentando as perguntas do pq eu não tava comendo, enquanto todo mundo confraternizava com o bolo de aniversário. Ao aceitar minhas dificuldades, aceito as dos outros tão mais fácil! Sim, ainda sou assim em relação à alimentação e sustentabilidade... paciência! No trabalho já é bem mais fácil trabalhar bastante sem me importar se os colegas estão trabalhando mais ou menos. Cada um deve ter mais facilidade/dificuldade em alguma área, né? Estou me aceitando! Se eu quiser tomar um caldo de cana e não estiver com caneca na bolsa, posso tomar mesmo assim, posso consumir um copo plástico eventualmente, não mereço ser tão rígida comigo mesma. Quando, durante a crise, fui contar para uma terapeuta que eu sentia culpa por não conseguir ser 100% não geradora de resíduo, 100% crudívora, só faltou ela rir da minha cara - "peraí, deixa eu entender: tu não fuma, não bebe, não usa drogas, não come carnes, e tá em crise por causa dos teus maus hábitos? Sério mesmo?" Na hora fiquei bem surpresa, sentindo que ela tava fazendo pouco caso do conflito que eu tava vivendo, mas depois me dei conta que era bem isso que eu precisava sentir tb, parar de querer perfeição e viver com mais leveza o que eu já tinha alcançado, sempre com o espírito e a consciência de seguir melhorando, mas sem autocobrança excessiva.
Durante o período mais espartano de alimentação viva, eu consegui me isolar da minha maior fragilidade, que é o vício alimentar em laticínios e açúcar, mas a que custo? Me isolando também do convívio - me separando de tudo o que há de ruim, mas tb do q há de bom. Pq sim, as pessoas comem pizza mas tb amam, se esforçam por serem melhores, buscam ser corretas e caridosas, cantam e dançam, amam a vida. Eu senti muita falta de poder compartilhar as coisas boas sem que as coisas ruins me tirassem toda a graça de viver os momentos de estar junto. Voltando a me permitir comer ovolactoveg nas confraternizações, de novo eu tenho que lidar com ter a opção de comer meus vícios no meu dia-a-dia, e eu sinto que viver essa minha fragilidade me liga ao todo, me faz sentir parte dessa humanidade que se esforça sim mas que não é perfeita, que tenta, que erra, que tenta de novo. Estou sentindo de novo, em vez de só racionalizar, que tá tudo perfeito, tá tudo no lugar em que tem q estar, voltei a naturalmente confiar e entregar que vai dar tudo certo, que a espiritualidade tá se encarregando dos processos, que a crise em todos os aspectos que estamos vivendo é parte da depuração e que o nosso destino é a perfeição. NOSSO destino. Quero ir de mãos dadas com meus irmãos que compartilham a Terrinha comigo, focando no que nos une em amor, e não nas nossas ainda falhas - inclusive, a nossa imperfeição é algo que nos aproxima hehe, ninguém é nem perto de perfeito nesse plano :)
Antes de sentir mais firmeza na escolha de flexibilizar hábitos, várias coisas ficaram lutando dentro de mim - como seria mudar de ideia publicamente, não poder mais me chamar de vegana, e como reagiriam à notícia as pessoas veganas que conheci nesse ano (muitas, muito amadas, que conheci pela internet e com as quais tenho praticamente só contato virtual). Aí me dei conta de que não deveria me ater a isso... minha prestação de contas é com minha consciência e eu sigo fazendo o que posso pela minha saúde, pelos animais, pelo planeta, do jeito que posso pra também ser feliz, dentro das minhas circunstâncias. Por exemplo, ter o círculo profissional e pessoal com pessoal simpatizantes do veganismo é uma circunstância facilitadora; e essa não é a minha realidade. E é muito, muito cara para mim a troca real com as pessoas... e a conexão é necessária para que a troca aconteça. No meu dia-a-dia, eu só convivo com pessoas tão absolutamente convencionais em seus hábitos, que têm no ovolactovegetarianismo o limite da mudança de hábito compreensível... antes eu devia parecer tão ET com meus potinhos ou só na água que eu sentia muitas vezes um bloqueio também na conversa, como se a pessoa me ouvisse já pelo filtro do "tudo isso é muito radical". Sinto que me tornei mais acessível a essas pessoas sendo ovolactovegetariana, que consigo me conectar melhor com elas agora, que bons frutos têm surgido dessa conexão. Não tem preço ver alguém repensar seus hábitos através do nosso exemplo. Então aceito, entrego, confio, perdôo, para conseguir amar um pouquinho melhor. E sei que sou muito menos danosa pro planeta, pros animais, pra minha saúde do que era quando parei com a carne e tinha um consumo bem frequente de ovo e lácteos, já que hoje o consumo é eventual, nas circunstâncias de grupo e de ambiente.
Acho que a maior lição dessa jornada foi a importância de largar o chicotinho, rsrs... parar de esperar nada menos que a perfeição na minha conduta, aceitar que o mundo e eu não somos perfeitos e que tá tudo certo mesmo assim, deixar as minhas mudanças emergirem de dentro em vez de impô-las de fora, aceitar minhas dificuldades e meu passo evolutivo. O pefeccionismo tava me fazendo sentir cheia de autorreprovações. Sigo com os mesmos ideais, mas aprendi a ser mais flexível comigo e com as situações.
Esse mês aconteceu uma coisa bem linda pra mim. Fui pela primeira vez na sede de Porto Alegre da Self-Realization Fellowship, para a comemoração do aniversário do Yogananda, amado guru que foi uma das descobertas de muito amor dos últimos meses, e ao fim da cerimônia apareceu um bolo (visivelmente com lácteos). Todos conversando em rodinhas, aproveitei para perguntar sobre as atividades do grupo, e, enquanto conversava, um rapaz veio na minha direção e me ofereceu uma fatia de bolo no guardanapo, com um sorriso tão aberto e amoroso que me deu muita, muita alegria em poder aceitar. Aceitar aquele amor, aquele momento, aquela confraternização em nome do guru querido, aceitar fazer integralmente parte daquele grupo tão afim das minhas intenções para essa vida, tudo manifesto no poder dizer sim àquela fatia de bolo. Depois do intenso debate interno de toda essa jornada dos últimos meses, foi um momento muito simbólico e libertador pra mim. 
Eu sigo acreditando e promovendo o veganismo como alimentação mais promotora de compaixão, sustentabilidade e saúde, sigo vegana na minha geladeira e no que entendo como futuro da humanidade, mas agora eu abro exceções pelo bem dos meus vínculos e alegria de viver. Aceitando comer ovolactoveg nas confraternizações, as festinhas deixaram de ser agonia pra mim, me divirto e as conversas seguem promotoras do bem e de novas formas de ver a vida. E sigo buscando o equilíbrio e a coexistência pacífica com o açúcar e com as comidas menos saudáveis, meu calcanhar de aquiles bem assumido, bem aceito e reconhecido (afinal a gente precisa acolher nossa sombra pra que ela possa ser iluminada e transmutada em algo melhor). Buscando equilíbrio, aceitação, flexibilidade.
Com amor e com leveza... sigamos!
Bjs

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Para aqueles dias de pouca fé na mudança

Oi :)
Hoje eu estou vindo aqui só para desabafar. Não só desabafar, na verdade; isso teria sido ontem. Mas hoje, depois de uma noite bem dormida eu já consigo olhar o ontem por uma perspectiva mais distante, e a minha vontade é compartilhar isso que me acontece às vezes: um dia em que parece que o trabalho de mudança é tão fenomenalmente gigante e além da nossa vontade, que eu fico questionando todo o esforço que tenho feito, me perguntando se realmente faz alguma diferença.
Acho que a melancolia começou na descida da serra no domingo, passando por Gramado e todas aquelas placas de comida pé-na-jaca que parece ser um dos principais motivos de as pessoas irem pra lá - como comida é uma questão delicada pra mim, com meu histórico de compulsão alimentar, meu olhar sempre percebe essas coisas e fico matutando sobre como se vive pro paladar ainda, como as pessoas se conectam através da comida - fiquei imaginando algumas famílias, que parece que só se vêem pra comer, o que seria da interação entre essas pessoas sem a comida, ou se todo mundo comesse para se nutrir apenas, e não pra agradar paladar, confraternizar, sair de barriga cheia, amenizar as dificuldades do dia, suprir carências, todas essas coisas que a gente faz através da comida e que a sociedade estimula com a oferta muito maior de comida junk coma-enquanto-aguentar do que de comida que nutre?
Depois na chegada na cidade, aquele engarrafamentinho amigo na 116, e me atacou mais forte que o normal a vontade de morar longe daquilo tudo - a fuligem e o ar tóxico, a concentração de gente e de radiação de todo tipo, a água cheia de cloro e flúor, a oferta abundante de todo tipo de anestesiador de consciência, o embotamento do concreto que nos desliga da nossa natureza biológica, que ofusca a nossa conexão com a natureza, a dificuldade de se conseguir alimento orgânico pq dentro de apê a horta que cabe é reduzida...
E ontem de manhã tudo isso juntou com as cenas do caminho pra um compromisso que tive no centro de Canoas, saindo do metrô um senhor acendendo um cigarro com a típica fissura de quem mal espera sair do espaço fechado pra se grudar na nicotina, e na outra mão ele tinha uma caixa grande de remédio - cena metáfora perfeita da nossa doença social: numa mão o que vendem pra matar, na outra o que vendem pra remendar o estrago, em tudo a venda, a promoção da doença - eu estava num estado tão triste que qualquer coisa que eu via já colocava sob esse prisma de estar imersa numa sociedade muito doente e distorcida das possibilidades reais de felicidade.
Para todo lado daquela caminhada eu via os lanches de carne e derivados, as farmácias abarrotadas, as propagandas de festa open bar pra se encachaçar, no whatsapp duas pessoas ficaram batendo boca num grupo do qual eu participo, e chegou num ponto que eu estava questionando tudo, todo o esforço que eu faço, o tempo que gasto pra comer melhor, o esforço de compreensão das pessoas e de fazer mais do que apenas o esperado de mim, a dissociação do grupo na hora das confraternizações por causa de comida e as explicações que tenho que dar por ser a única vegana de todos os meus círculos de convívio, a incompreensão das minhas escolhas que faz a maioria me achar só "a chata", e a indiferença daqueles que entendem meus motivos e não estão ainda no seu momento de mudança - fiquei questionando que diferença eu faço pro mundo com meus produtos de higiene e limpeza naturais, meu não-consumo de derivados animais, minhas idas quinzenais à feira orgânica que me tomam um tempão pois não tenho feira perto de casa, o tempo que gasto explicando pras pessoas o que motiva minhas ações - olhei ao redor e, naquele estado de espírito, senti que nenhuma vaca do mundo estava menos explorada mesmo com todo o meu esforço individual, que a água do esgoto seguia tão cheia de componentes químicos mesmo eu tendo parado com a pílula e com o Ajax, que os lixões seguem abarrotados cada vez mais de tanto incentivo ao consumo, mesmo com a minha composteira e meu cuidado na redução e reutilização, que as toneladas de agrotóxicos seguem sendo despejadas na Terra do mesmo jeito mesmo com meu consumo quase 100% orgânico. Até o benefício pra minha saúde eu questionei, já que todo o meu esforço naquele momento estava me dando uma tristeza que certamente também somatiza e não me deixa assim tão saudável. Tudo o que eu faço que me demanda mais trabalho do que o que as pessoas fazem dentro da normose, tudo ficou com a validação questionada dentro de mim naquelas horas.
"Meu médico diz que eu preciso comer carne!"
Foi assim o dia ontem, de me sentir o menor dos grãos de areia tentando fazer a praia diferente.
Minha pergunta: vcs que buscam ser diferentes da maré, têm dias assim? Isso é coisa que atinge genericamente quem busca ser diferente-pra-melhor, ou é só coisa da natureza melancólica da Fê se manifestando?
Ontem cheguei em casa do trabalho, fiz meu lanche (vegano quase nada cru, já q eu tb compenso emoções na comida), fiquei vendo notícias boas na net, pessoas se envolvendo com ressocialização, ONGs com lindos trabalhos, demonstrações de amor, estatísticas felizes da ampliação da onda do bem, um vídeo lindo do retiro que fiz semana passada, e meu coração foi saindo daquela vibração de desesperança. Fiz mais da minha pasta de dente feita em casa e do meu shampoo de bicarbonato, ouvi uma palestra do Oberom. Fiz o que eu podia pra lembrar que não estou sozinha, e fui dormir tentando não me permitir pensar no estado geral do mundo. E fui pedindo, ao longo do dia, que Deus me sustentasse a fé na mudança que já existe, pra eu não desacreditar do agora. Eu sei, eu sei que o nosso futuro inevitavelmente vai ser de luz, vai ser de um novo nível de relação entre os seres vivos, outro nível de relação com a natureza, com a nossa Terra. Só preciso de ajuda nesses dias em que me sinto solitária no agora, em que eu sinto que não vou dar conta de ser a diferente até que o tal futuro se estabeleça. Mas a verdade é que eu tb não tenho escolha. Eu já tenho as informações, já tenho a consciência. Não poderia voltar a viver como já vivi, como as pessoas vivem. Então o que me resta, realmente, é nutrir minha esperança e reforçar a validade de viver como vivo, buscar as vivências que criam a paz de dentro para fora, introjetar na mente a importância que tem cada consciência vibrando positividade, cada pessoa se alimentando sem demandar violência, cada ato de redução de dano à Terra. Vale sim!!
Acordei bem melhor hoje, conseguindo ver tudo isso que me aconteceu ontem já com distância, e pensando em como não deixar a normalidade me atingir. Preciso meditar. Preciso mais exercício físico. Preciso simplificar minha rotina e ter algum tempo pra descansar. Preciso reforçar minha espiritualidade. Cada vez mais acho que os recursos que a espiritualidade dá são os que realmente nos salvam da amargura e da desesperança, quando a gente tenta viver diferente. Pq o negócio todo é ser feliz, e por mais que a realidade nos doa, não pode estar certo se permitir tristeza constante diante do que há, e amargura pela solidão do caminho alternativo. Felicidade se constrói dentro de nós, na nossa casa mental e emocional, a partir do nosso lastro espiritual.
Vou acabar com uma tirada ótima de um amigo querido - ele mora numa terra linda num lugar afastado, servindo à ideia de uma nova consciência, totalmente de acordo com tudo o que eu busco pra mim, recebendo pessoas em retiro para vivenciarem esse novo mundo. Um dia ele foi na cidade mais próxima da terra em que mora e, na fila do mercado, alguém lhe disse "E aí, então, tá visitando a civilização?" e ele respondeu muitíssimo espirituoso "Pois é, vim visitar o passado".
Hoje eu peço, pra mim e para as pessoas já vibrando uma nova realidade, resiliência pra sobreviver à civilização do passado que nos circunda no presente. Fé, galera, esperança pra nós.





sábado, 17 de outubro de 2015

O preço da carga horária

Oi queridos!
Tenho visto notícias sobre a experimentação de mudança de carga horária na Suécia, para 30 horas semanais. Vcs viram?
Adorei isso vindo à tona como assunto de discussão.

Experiência própria: 6 horas de trabalho focado rendem MUITO, muitas vezes mais do que 8 horas e a noção de que, se vamos passar o dia todo no trabalho mesmo, então vamos aproveitar pra checar emails, pagar contas, essas coisas da vida pessoal, e vamos tomar cafés pra tocar o dia, levantar pra espairecer e trocar uma ideia com os colegas, as letras bailam na tela do PC depois do almoço, vai mais café, olha o celular...
Acho bem bizarro pensar o quão pouco sobra de tempo de vida quando se trabalha 8h, almoça 1h ou mais, desloca 1h pra ir e 1h pra voltar = 11h úteis do dia envolvido com o que pra muita gente é só o meio de ter viabilidade material na vida. É realmente dar a vida por dinheiro, e sem ter muito pra onde correr, pq é muito difícil achar na maior parte do mundo um emprego que dê opção a esse esquema de falta de vida.
Aí não é de se estranhar que as pessoas terceirizem o cuidado com sua alimentação, com suas casas, com sua saúde, que negligenciem a sustentabilidade do planeta, o exercício de cidadania... esses dias ouvi: "minha mãe, que é aposentada e tem tempo pra essas coisas, separa lixo... a gente, que vive correndo, não tem como atentar pra essas coisas" - que sistema tão bem pensado esse capitalismo selvagem na ilusão da alegria consumista! Faz as pessoas correrem por dinheiro, e na corrida por dinheiro ficam tão sem tempo que não se dão conta das coisas realmente importantes, nem conseguem parar pra pensar o que será que é que tá faltando que faz elas seguirem correndo atrás de coisas, e trabalhando mais e mais pra ter o dinheiro de consegui-las!
Claro que tem pessoas que conseguem sentir tédio nas horas "vagas" mesmo trabalhando 44 horas por semana, mas quando a gente se abre pra necessidade de cuidar de todas as esferas da nossa vida, simplesmente não sobra espaço para ociosidade não criativa. Tentar fazer parte do ciclo da natureza é um esforço ativo quanto mais na cidade a gente mora - reaproveitamento de água, de matéria orgânica, cultivos, tudo isso demanda tempo; participação cidadã, acompanhar projetos de lei e opinar, mandar emails para agentes políticos e se envolver em manifestações, ativismos de todo tipo; cuidado com a saúde, aprendizados sobre nutrição, buscar seu alimento orgânico, local e agroecológico, fazer a própria comida; ler e praticar yoga, meditação, ou a prática de espiritualidade da sua escolha, tudo isso demanda tempo, e é parte muito real das responsabilidades humanas! Tão esquecidos andamos dessas responsabilidades, que se vincula o trabalho, pagar contas e o leva-e-traz dos filhos às únicas responsabilidades de uma vida. E aí a gente vê por aí tantas crianças emocionais, com dificuldade de lidar com suas questões mal resolvidas, tomando remédio como se fosse bala, e dá-lhe tv pra não pensar; tantos absolutamente insensíveis ao dano que a nossa sociedade causa à Terra, tantos reclamadores do estado da política e da gestão pública sem que façam o que lhes cabe como cidadãos pra melhorar as coisas (ainda que pouco consigamos mudar, mesmo sendo muito ativos nessa área da cidadania... é o que nos cabe).
Com a vida dedicada a conseguir dinheiro, não sobra tempo pras essas responsabilidades muito reais, quanto mais para a arte, para a beleza, para a contemplação - pior que essas coisas tb, deram um jeito de gourmetizar e fazer virarem eventos de vaidade, de "ver e ser visto" em vez de serem instrumentos de internalização verdadeira, de conexão real com o todo.
Esse assunto do tempo gasto no trabalho puxa muitos outros e fácil a gente vê o quanto ele se relaciona com a sustentação da matrix que mantém as pessoas dormentes.

Por isso minha alegria de ver a Suécia puxando o bonde. É preciso parar com essa mentalidade de que quem trabalha 6h (no Brasil, possibilidade principalmente de algumas classes profissionais e alguns órgãos públicos apenas) é vagabundo, e pra mudar essa mentalidade é importante que se mostre ao mundo que isso é viável para empresas, que a produtividade compensa, que a sociedade toda se beneficia pela saúde mental que permite aos trabalhadores. Quanto à necessidade de se trabalhar para viver, é uma reflexão bem mais profunda... mas, considerando que alguma demanda por moeda de troca existirá na vida de todos, e que trabalho com esse fim existirá também, pelo menos se pode afirmar: a vida não pode ser gasta inteira nessa troca de tempo por dinheiro, nós somos MUITO mais que isso!
Termino confirmando o título dessa reportagem muito legal sobre o assunto: ninguém deveria se orgulhar de trabalhar muito. (trecho: "Para compensar o corte de horas, foi pedido aos funcionários da Filumundus que não entrassem nas redes sociais durante o expediente e que evitassem outras distrações. As reuniões também foram reduzidas ao mínimo. Feldt garante que não só a produtividade permaneceu igual, como os pequenos conflitos do dia a dia diminuíram e as pessoas estão mais motivadas. "Na verdade elas estão mais felizes e descansadas.")

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Ode racional ao amor

Bommm dia chuvoso aqui nas paragens do RS :)
Faz tempo que eu penso em falar sobre a importância do amor, de deixar o amor ser a ótica de uma vida.
Não o amor romântico, ou o amor aos familiares e amigos; aquele amor universal e fraterno, do qual a gente ouve falar geralmente em contextos religiosos.
Aí mesmo que reside o problema: tanto se ouviu falar dele nos contextos religiosos, que a pessoa que refuta a religião acaba refutando junto a atenção ao exercício desse amor. Eu entendo o exercício do amor como uma manifestação da nossa dimensão espiritual, como aquilo que remete ao que nos é essencial, ao que se passa dentro de nós e ao como funcionamos, o que nos vincula com o motivo de estarmos aqui, com o que nos faz felizes e justificados na vida. Entre religião e espiritualidade pode haver a distância do universo - é absolutamente possível uma pessoa ter uma ótima relação com sua espiritualidade e não ter religião, assim como o contrário... aquelas pessoas que estão vinculadas a religiões sem que isso seja um instrumento de mudança de percepção, autoconhecimento, conexão interior.
É triste que muito se confunda espiritualidade com religiosidade e que não se perceba que há sim muito espaço para o desenvolvimento da espiritualidade dentro dos grupos religiosos, ainda que o que se veja mais (acredito que não por serem em maior quantidade, mas por fazerem mais esparro e se tornarem mais visíveis) sejam exemplos de intolerância e fundamentalismo, paradoxalmente opostos à ideia do amor.
É que, esse amor aí assunto do post, quem deu mais publicidade para essa ideia aqui nas paragens do Ocidente foi Jesus. E como fundamentalismo religioso começou há séculos infindáveis, quando finalmente a nossa civilização conseguiu sair do jugo da Igreja, no fim da Idade Média, se convencionou que as coisas da matéria seriam assunto da ciência, e as coisas do espírito seriam assunto da religião, e cada uma ficaria no seu quadrado. Essa dualidade foi extremamente válida como ruptura de uma época em que a tal autoridade religiosa determinava a vida das pessoas, atendendo a seus interesses escusos - tenho certeza de que todos já ouviram o suficiente acerca das atrocidades cometidas nesse período, e tb sei que é o motivo pelo qual muitos ainda se mantém completamente distanciados de qualquer possibilidade espiritual e religiosa.
Infelizmente, nessa separação muito necessária à época do Renascimento, Jesus e suas ideias ficaram relegados ao campo da religião. E desde lá tem sido assim - 500 anos em que muitas coisas mudaram, em que novas formas de usar Jesus para fins particulares duvidosos surgiram, e em que muitas pessoas maravilhosas não querem nem ouvir falar de Jesus, de tanto ranço histórico.
Só que Jesus não instituiu religião nenhuma. Ele foi divulgador de uma ideia, a de aplicar o amor como ótica em todas, todas as áreas da vida. E esse amor universal fraterno se traveste de muitas outras virtudes: otimismo, gratidão, compaixão, resiliência, humildade, pacificidade, pureza de coração.
Já que Jesus foi posto de lado com suas ideias, a caracterização da pessoa de bem na sociedade acabou ficando restrita ao "pago minhas contas e impostos, não mato, não roubo, trabalho pesado pra ter minhas coisas, crio bem meus filhos, amo meus pais". Tudo isso é muito importante, não há dúvidas; esse é o básico da parte prática da vida. Mas com que olhar, com que ótica de mundo se vive? Vejo muitas pessoas que seguem essa correção de caráter na vida prática e que:
- reclamam de tudo e de todos o tempo todo,
- só xingam governo de qualquer partido, seja o governo causa ou não do problema sendo discutido, 
- surtam quando a vida apresenta alguma dificuldade maior, botando a culpa do surto na dificuldade,
- acham que tudo sempre vai dar errado, que tudo só tende a piorar, e que o pior sempre acontece com elas,
- acham muito bonito não levar desaforo pra casa e sair por cima quando se sentiram provocadas,
- acham que nunca têm o bastante de saúde, de atenção, de dinheiro, de condições de vida,
- acham que qualquer aparente boa ação deve ter um segundo interesse por trás,
- julgam muitas pessoas como vagabundas, encostadas, incompetentes, egoístas, orgulhosas, etc etc etc.
Vc também deve conhecer, né?

E os homens da ciência acadêmica, tão envaidecidos do seu monopólio da verdade, se esquecem de que ao longo desses séculos desprezaram e riram da cara de muitas pessoas que vieram expor suas ideias verdadeiras, e não aprenderam a lição de humildade de que toda ideia plausível merece respeito, até que seja confirmada ou refutada.
Vcs já viram o discurso do Chaplin naquele filme de 1940, o Grande Ditador?
Tem uma hora em que ele diz assim:
"Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido."
Quem não ouviu ainda, ouça todo, ou leia todo, vale MUITO a pena.
Pois é, Chaplin. Que pena que um dia se convencionou que amor, otimismo, gratidão, compaixão, resiliência, humildade, pacificidade, pureza de coração eram coisas de religião, coisa para gente inocente a ponto de cair na lábia dos que usavam e usam Jesus para seus interesses. As pessoas estudadas aprendem tb nos seus estudos a rir daquelas que cultivam essas ideias: pobres ignorantes, o que seria deles se não fôssemos nós a pensar os rumos do mundo e da nação, a assistir jornal pra citar as estatísticas na fila do banco e na roda do bar? Que pena que daquele dualismo entre ciência e religião tenha resultado uma sociedade tendente a niilista, cética, sarcástica, apocalíptica.
Aí o mundo está inundado em antidepressivos e vai ficando claro que viver na receita de bolo da nossa sociedade não ajuda as pessoas a serem felizes. Aí a física começou a dar indícios de que a realidade é afetada pela intenção do observador, e pensar positivo não parece mais tão absurdo. E as pessoas vão se abrindo pra necessidade de algo mais do que ser um cidadão com práticas corretas. Vai ver tinha alguma filosofia mais profunda por trás da aparente ignorância ou superficialidade daqueles que falam de amor e vivem sorrindo.
Na verdade Jesus falava de amor como forma prática de lidar com adversidades, com as pessoas difíceis, com os bens materiais, com a família, com a dor dos outros, pois amor não pode ficar só no discurso, ou só na ida semanal à igreja ou ao culto. Amor é ótica de vida em todos os momentos práticos da jornada.
Então, a conclusão desse falatório todo é: não refute o amor universal e fraterno sem realmente buscar informações, sem ler a respeito. Quem faz isso de cabeça aberta, sem preconceito, enxerga as vantagens de buscar essa ótica. A vida feliz só se sustenta a longo prazo se o bem que se buscar for o de todos e não só o do próprio umbigo; e a saúde mental e física depende de nutrir bons sentimentos e pensamentos (ciência cada vez mais tendo que se abrir para as evidências disso, apesar de parecer preferir não acolher hipóteses a respeito das causas dessa influência das esferas sutis no corpo físico). Não precisa pensar em Jesus se não quiser, essas ideias não são monopólio dele. Amor é trabalho de autoconhecimento e reflexo nas relações com o mundo externo. É como Deus, que também responde por Universo e suas regras. Chame como quiser, mas abra sua cabeça pra viver mais consciente dos seus pensamentos e palavras, mais consciente de si, das pessoas, do nosso mundo.
Falando por mim agora: eu vivo a minha espiritualidade com pleno, pleno respaldo da minha racionalidade, dos meus estudos pessoais, da minha graduação em Biologia. Mais ainda agora, com a pós-graduação que estou fazendo em Saúde e Espiritualidade, com toda a gama ampla de informações e a nova consciência que vem se abrindo para mim no último ano. Meu voto é o de buscar ver sempre o melhor da vida mesmo nas dificuldades, é de encontrar finalidade para a minha existência, é de tentar fazer parte da solução de forma prática, é de tentar não abrir a boca se não for pra falar algo bom e útil. Não emito medo e violência se não quero entrar nessa vibração e receber isso de volta. Busco me comprometer com a Vida nas suas diversas manifestações - falar e cumprir, ser correta e dedicada no meu trabalho, não mentir, não zombar, manter minhas relações, cuidar das coisas materiais que consegui/ganhei/peguei emprestado, buscar palavras gentis e tantas outras formas - e sei que a vida se compromete comigo em retorno.
Amar e mudar as coisas, mudar com meus atos, com minhas escolhas e com minha cidadania, e com minhas palavras e pensamentos, vibrar esperança e confiança em um universo de abundância, sintonia e beleza. Funciona. Me mantém sorrindo.
Bjs :)